Fornecedor de TI de Goiás acende alerta para risco cibernético no agronegócio brasileiro
A digitalização acelerada do agronegócio no Brasil, antes apontada apenas como motor de produtividade e competitividade, começa a revelar um ponto cego perigoso: a cibersegurança ainda está muito atrás da sofisticação tecnológica adotada no campo. O resultado é um cenário em que fazendas, cooperativas, tradings, indústrias de insumos e grandes grupos do setor se tornaram alvos prioritários de cibercriminosos.
Nos últimos anos, tecnologias como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, telemetria, automação de maquinário, drones e sistemas avançados de gestão agrícola passaram a fazer parte da rotina produtiva. Sensores em silos, tratores conectados, estações meteorológicas inteligentes e plataformas de monitoramento em tempo real ampliaram de forma expressiva a superfície de ataque, abrindo múltiplas portas de entrada para invasores.
Os números confirmam a gravidade do problema. Em 2025, o Brasil registrou mais de 39 mil ataques cibernéticos direcionados ao agronegócio, uma média superior a 3.200 tentativas por mês. Esse volume já coloca o setor como responsável por cerca de 10% de todos os incidentes de ransomware no país, demonstrando uma mudança clara no foco dos grupos criminosos, que passaram a enxergar o agro como um alvo estratégico e lucrativo.
De acordo com Fábio Szescsik, diretor executivo de cibersegurança da INN Tecnologia, empresa goiana com mais de 15 anos de atuação em tecnologia da informação, a raiz do problema está no descompasso entre a evolução digital e o investimento em proteção. Segundo ele, enquanto o campo se recheia de sensores, sistemas e conectividade, a segurança ainda é tratada como despesa e não como parte essencial da operação.
Szescsik ressalta que a questão já extrapolou o patamar de preocupação pontual. Em suas palavras, a segurança digital no agronegócio deixou de ser um tema acessório ou “coisa de TI” para se tornar um risco estrutural, com potencial de paralisar processos críticos, interromper operações em períodos de safra e afetar cadeias produtivas inteiras, da plantação ao porto.
Casos como o ataque sofrido pela JBS e incidentes em outras empresas de médio e grande porte do segmento mostram o efeito em cascata que um simples ransomware ou invasão bem-sucedida pode gerar. Quando sistemas de logística, abate, armazenagem ou exportação são comprometidos, o impacto não atinge apenas uma planta industrial ou uma fazenda específica, mas toda a rede de fornecedores, clientes, transportadores e parceiros.
Entre os vetores mais explorados pelos criminosos estão golpes de phishing direcionados a funcionários e gestores, exploração de brechas em dispositivos IoT instalados no campo, acessos remotos sem proteção adequada e falhas na cadeia de fornecedores de tecnologia e serviços. Em muitos casos, os ataques se aproveitam de falhas elementares, como senhas fracas, ausência de autenticação em dois fatores, sistemas desatualizados e falta de segmentação de redes.
Para o executivo da INN Tecnologia, enfrentar esse cenário requer abandonar soluções pontuais e adotar uma visão de longo prazo, baseada em governança, inventário e visibilidade de ativos, monitoramento contínuo e, principalmente, mudança de cultura dentro das empresas do agro. Não basta adquirir ferramentas; é preciso integrar processos, pessoas e tecnologia em um modelo consistente de gestão de risco.
Um dos gargalos mais críticos está justamente na cultura organizacional. Em muitas companhias rurais, a segurança ainda é vista como obstáculo à produtividade ou como tema exclusivo da área de TI. Operadores de campo, gestores de fazenda, equipes administrativas e até diretores frequentemente não são treinados para reconhecer tentativas de fraude, manipulação de dados ou acessos suspeitos. Isso abre espaço para ataques que se iniciam em um simples e-mail malicioso ou mensagem em aplicativo.
A governança em cibersegurança no agronegócio envolve definir claramente papéis, responsabilidades e processos de tomada de decisão em caso de incidente. É preciso saber quem aciona quem, quais sistemas devem ser isolados, quais operações podem ser paralisadas temporariamente e como será feita a comunicação com parceiros e clientes. Sem esse desenho prévio, a reação tende a ser caótica, o que aumenta danos financeiros e reputacionais.
Outro ponto crítico é a visibilidade dos ativos conectados. Muitas fazendas e empresas agrícolas sequer possuem um inventário atualizado de todos os equipamentos e sistemas que se comunicam com a rede: sensores, câmeras, controladores de irrigação, balanças automatizadas, estações meteorológicas, roteadores em galpões, notebooks em veículos, entre outros. Sem saber exatamente o que está conectado, fica impossível proteger de forma adequada.
O monitoramento contínuo também é essencial. A simples instalação de antivírus ou firewall já não é suficiente para enfrentar ameaças cada vez mais sofisticadas. É necessário acompanhar em tempo real o comportamento da rede, identificar anomalias, bloquear acessos suspeitos e reagir rapidamente a sinais de invasão. Centros de Operações de Segurança (SOC) especializados, internos ou contratados, tornam-se aliados estratégicos para empresas de qualquer porte no setor.
Do ponto de vista econômico, ignorar a cibersegurança pode ter custo muito maior do que investir em proteção. Paradas de produção em plena colheita, perda de dados de safras, indisponibilidade de sistemas de rastreabilidade e bloqueio de acesso a plataformas de negociação podem gerar prejuízos milionários em poucos dias. Em cadeias altamente integradas e dependentes de prazos, qualquer interrupção se traduz em cancelamento de contratos, multas e perda de confiança.
Pequenas e médias empresas do agro também não estão imunes. Ao contrário do que muitos acreditam, grupos criminosos frequentemente escolhem alvos com menor maturidade em segurança, justamente por serem mais fáceis de explorar. Cooperativas, revendas de insumos, transportadoras e prestadores de serviço rural armazenam dados sensíveis e fazem parte de grandes cadeias produtivas, o que as torna porta de entrada para ataques maiores.
Para reduzir a exposição, especialistas apontam alguns passos imediatos: mapear todos os ativos de TI e OT (tecnologia operacional), revisar políticas de acesso remoto, segmentar redes críticas (por exemplo, separar sistemas industriais de redes administrativas), atualizar regularmente equipamentos e aplicações, implementar autenticação forte e promover treinamentos periódicos de conscientização para todos os níveis da organização.
Outro elemento cada vez mais relevante é a integração entre segurança física e digital. No campo, câmeras, sensores de perímetro, portões automatizados e sistemas de controle de frota já estão conectados à rede corporativa. Um ataque bem-sucedido pode, na prática, abrir portas físicas, desativar alarmes ou interferir em rotas de transporte, aproximando o risco cibernético do mundo real de forma muito concreta.
O agronegócio brasileiro, responsável por parcela significativa do PIB e das exportações do país, se tornou um ativo estratégico também no cenário geopolítico. Isso faz com que além de grupos criminosos em busca de lucro rápido, surjam ameaças ligadas à espionagem industrial, sabotagem e competidores internacionais interessados em informações sobre produtividade, genética de sementes, estoques e estratégias de comercialização.
Nesse contexto, empresas de tecnologia com atuação regional, como a goiana INN Tecnologia, desempenham um papel-chave. Conhecer a realidade local, entender a sazonalidade, as particularidades das culturas e o perfil das operações permite desenhar soluções de segurança mais aderentes às necessidades do produtor rural e das indústrias associadas, sem comprometer a eficiência que a tecnologia trouxe para o campo.
O desafio, porém, ainda é convencer gestores a encarar a cibersegurança como investimento estratégico, e não como gasto opcional. A tendência é que seguradoras, instituições financeiras, tradings e grandes compradores passem a exigir níveis mínimos de proteção digital em suas cadeias de fornecimento, criando um movimento de pressão de cima para baixo. Quem estiver atrasado nesse processo poderá encontrar barreiras para acessar crédito, fechar contratos e participar de mercados mais exigentes.
O recado vindo de Goiás e ecoado por especialistas em todo o país é claro: o agronegócio já é digital, mas sua proteção ainda não acompanha essa realidade. Adiar decisões de segurança significa assumir o risco de ver sistemas paralisados no auge da safra, contratos comprometidos e dados estratégicos nas mãos de criminosos. Integrar cibersegurança ao planejamento do negócio não é mais uma opção, e sim condição básica para garantir a continuidade e a competitividade do campo brasileiro nos próximos anos.