Tentativas de fraude no e-commerce sobem 12% em julho e elevam risco no varejo digital

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Tentativas de fraude no e-commerce sobem 12% em julho após seis meses de recuo

A taxa de tentativas de fraude em transações digitais no comércio eletrônico brasileiro voltou a crescer em julho, interrompendo uma sequência de seis meses de queda. De acordo com o Índice de Fraude da Equifax BoaVista, o percentual passou de 1,08% em junho para 1,21% no mês seguinte – uma alta mensal de 12%.

O levantamento analisou mais de 45 milhões de operações realizadas no comércio eletrônico nacional entre junho e julho de 2026. Embora o aumento percentual indique uma mudança relevante no cenário, os dados também mostram que os criminosos estão elevando o valor médio das operações e adotando métodos mais elaborados para escapar dos sistemas de segurança.

Em números absolutos, as tentativas de fraude passaram de 248,6 mil para 269,9 mil ocorrências, avanço de 8,6%. Já o impacto financeiro cresceu em ritmo superior: o valor associado às transações suspeitas alcançou R$ 277,6 milhões, alta de 13,2%.

O ticket médio das tentativas também aumentou. Em junho, cada operação fraudulenta movimentava, em média, R$ 986,93. Em julho, esse valor subiu para R$ 1.028,82, uma elevação de 4,2%. O dado sugere que os ataques não estão apenas mais frequentes, mas também mais direcionados a compras de maior valor.

Segunda metade do ano exige atenção redobrada

A retomada registrada em julho pode estar relacionada à sazonalidade tradicional do varejo digital. No segundo semestre, as empresas costumam ampliar campanhas promocionais e concentrar esforços em datas de grande volume, como Dia das Crianças, Black Friday e Natal.

Esse aumento na quantidade de pedidos cria oportunidades para os fraudadores explorarem brechas operacionais. Em períodos de alta demanda, equipes de atendimento e análise trabalham sob pressão, enquanto os sistemas precisam processar um número maior de transações em menos tempo. Esse contexto pode favorecer tentativas de uso indevido de cartões, invasão de contas e criação de cadastros falsos.

O comportamento também pode indicar uma preparação antecipada para os principais eventos do calendário comercial. Criminosos tendem a estruturar ataques com antecedência, testando credenciais, validando dados pessoais e observando os mecanismos de aprovação das lojas.

Fraudes ganham aparência de operações legítimas

Segundo a análise da Equifax BoaVista, os fraudadores têm investido mais tempo na preparação das ações. Dados obtidos em vazamentos são combinados com contas abertas previamente e padrões de navegação semelhantes aos de consumidores reais.

Essa estratégia dificulta a identificação automática. Em vez de realizar uma compra claramente incompatível com o histórico do titular, o criminoso tenta reproduzir comportamentos comuns: acessa o site por dispositivos conhecidos, navega por diferentes páginas, adiciona produtos ao carrinho e conclui a operação em horários considerados habituais.

A sofisticação reduz a eficácia de filtros baseados apenas em regras simples, como localização, valor da compra ou tipo de dispositivo. Por isso, a análise precisa considerar um conjunto mais amplo de sinais, incluindo velocidade de navegação, alterações cadastrais, comportamento de login e relação entre endereço de entrega e histórico do cliente.

Juliano Manrique, superintendente de Produtos de ID & Fraud da Equifax BoaVista, avalia que julho representa uma retomada da atividade criminosa depois de um primeiro semestre marcado por reduções sucessivas. Para ele, o desafio deixou de ser exclusivamente controlar o volume de ataques e passou a envolver também a capacidade de reconhecer ações cada vez mais discretas.

Como o varejo pode se preparar

A prevenção deve começar antes dos períodos promocionais, com revisão dos processos de autenticação, atualização das regras de risco e avaliação dos canais mais vulneráveis. Não basta reforçar o monitoramento apenas quando a Black Friday ou o Natal estiverem próximos.

Uma estratégia eficiente combina análise automatizada e revisão especializada. Ferramentas de inteligência podem identificar padrões em grandes volumes de transações, enquanto analistas avaliam casos que apresentam sinais ambíguos ou exigem contexto adicional.

Também é importante adotar autenticação proporcional ao risco. Clientes com comportamento consistente não devem enfrentar etapas excessivas, pois isso aumenta o abandono de carrinho e prejudica a experiência de compra. Já operações consideradas atípicas podem exigir confirmação adicional, validação biométrica ou verificação por outro canal.

Falsos positivos continuam sendo um problema

O combate à fraude precisa equilibrar proteção e conveniência. Bloquear compras legítimas pode gerar prejuízos financeiros, insatisfação e perda de confiança na marca. Em alguns casos, o custo de um falso positivo é maior do que o de uma tentativa de fraude isolada.

Por essa razão, os modelos de decisão devem ser revisados continuamente. Regras que funcionaram em um período podem se tornar inadequadas quando mudam os hábitos dos consumidores, surgem novas formas de pagamento ou os criminosos adaptam suas técnicas.

A qualidade dos dados também influencia diretamente o resultado. Informações desatualizadas, cadastros duplicados e falhas na integração entre plataformas dificultam a identificação de padrões. A empresa precisa manter uma visão unificada do cliente, considerando histórico de compras, dispositivos utilizados, endereços, formas de pagamento e interações anteriores.

Consumidores também podem reduzir os riscos

Do lado do consumidor, algumas medidas ajudam a diminuir a exposição. Manter senhas únicas, ativar a autenticação em dois fatores e evitar o uso de redes públicas para concluir compras são práticas recomendadas.

Também é fundamental conferir o endereço do site antes de informar dados pessoais ou financeiros. Mensagens com promoções muito abaixo do preço habitual, pedidos urgentes de atualização cadastral e links recebidos por canais desconhecidos devem ser tratados com cautela.

O acompanhamento frequente do extrato bancário e das notificações de compra permite identificar movimentações suspeitas rapidamente. Quanto menor o tempo entre a fraude e a comunicação à instituição financeira, maiores tendem a ser as possibilidades de bloqueio ou contestação da operação.

Tendência deve ser monitorada nos próximos meses

O resultado de julho não permite concluir, isoladamente, que haverá uma alta contínua durante todo o segundo semestre. No entanto, a combinação entre aumento na taxa, crescimento do volume absoluto e elevação do valor médio exige atenção das empresas.

Com a proximidade das principais datas promocionais, o comércio eletrônico deve enfrentar uma disputa mais intensa entre conveniência e segurança. Organizações que investirem em monitoramento contínuo, autenticação inteligente e integração de dados estarão mais preparadas para conter ataques sem transformar a jornada de compra em uma sequência de obstáculos.

A retomada observada no índice funciona, portanto, como um sinal de alerta. A redução registrada no primeiro semestre não elimina o risco; ela reforça a necessidade de acompanhar mudanças no comportamento dos fraudadores e adaptar os mecanismos de defesa antes que o volume de transações atinja seu pico.