Deepfakes caseiros ampliam risco de fraudes financeiras no brasil

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IA a serviço do crime? Deepfakes “caseiros” ampliam risco de fraudes financeiras

A popularização da inteligência artificial generativa está transformando o modo como golpes digitais são planejados e executados no Brasil. Recursos que antes dependiam de conhecimento técnico avançado agora podem ser utilizados por pessoas comuns, por meio de aplicativos acessíveis, interfaces intuitivas e serviços de baixo custo.

Esse movimento favoreceu o crescimento dos chamados deepfakes “caseiros”, conteúdos falsos capazes de reproduzir voz, rosto, gestos e até a maneira de falar de uma pessoa. Segundo levantamento divulgado em agosto por uma IDTech brasileira, esse tipo de fraude aumentou 400% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Os números gerais das fraudes digitais também mostram a dimensão do problema. Dados apresentados durante a Febraban Tech 2026 indicam que os deepfakes respondiam por apenas 0,1% das fraudes identificadas em março de 2025. Em 2026, a participação chegou a 6,5%. A inteligência artificial já aparece em 42,5% das ocorrências de fraude financeira registradas no país.

Outro levantamento, divulgado pela Agência Brasil, aponta que os golpes baseados em engenharia social representaram 40% dos indícios de fraudes financeiras no primeiro semestre de 2026. Foram mais de 9 milhões de ocorrências suspeitas ou confirmadas no período.

Como os golpes com voz e imagem clonadas funcionam

Na prática, o criminoso utiliza ferramentas de IA para imitar a voz ou a aparência de alguém conhecido da vítima. A abordagem pode ocorrer por ligação telefônica, mensagem de áudio, vídeo ou chamada em tempo real.

Um fraudador pode, por exemplo, simular um parente pedindo dinheiro com urgência, representar um advogado que solicita o pagamento de uma taxa judicial ou se passar por um gerente bancário. A utilização de voz clonada e imagens convincentes cria uma sensação de autenticidade e reduz a desconfiança da vítima.

Em muitos casos, o golpe combina informações obtidas em redes sociais, vazamentos de dados e pesquisas abertas na internet. Nome de familiares, profissão, rotina, local de trabalho e até detalhes sobre processos judiciais podem ser reunidos para tornar a abordagem mais persuasiva.

Um caso investigado em São Paulo ilustra essa estratégia. Em maio, a Polícia Civil prendeu oito suspeitos de integrar uma organização criminosa que utilizava inteligência artificial para reproduzir a voz de advogados e aplicar o chamado golpe do falso advogado. De acordo com a investigação, o grupo teria movimentado aproximadamente R$ 10 milhões.

O enquadramento criminal depende da conduta

Para o advogado Rafael Valentini, especialista em Processo Penal e sócio do FVF Advogados, o uso de deepfake não cria necessariamente um crime novo. A tecnologia pode ser empregada como instrumento para a prática de delitos já previstos na legislação brasileira.

Quando a manipulação é utilizada para enganar alguém e obter vantagem econômica, o enquadramento mais provável é o estelionato mediante fraude eletrônica, previsto no Código Penal. Dependendo do método adotado, também podem ser identificados crimes de falsa identidade e invasão de dispositivo informático.

Essa última hipótese pode ocorrer quando o criminoso acessa ilegalmente o celular, o computador ou a conta digital da vítima para obter informações pessoais, financeiras ou íntimas. O conteúdo produzido por IA, portanto, pode ser apenas uma etapa de uma operação criminosa mais ampla.

O simples emprego da inteligência artificial não provoca, automaticamente, aumento de pena. Não existe uma regra geral que determine agravamento obrigatório para qualquer crime praticado com essa tecnologia. Ainda assim, o juiz pode considerar o uso de deepfake na avaliação das circunstâncias e da gravidade concreta da ação, desde que apresente fundamentação jurídica.

A análise pode ser especialmente relevante quando a vítima é idosa, pertence ao círculo familiar do criminoso ou quando a fraude se vale de uma posição profissional ou institucional para aumentar a credibilidade da abordagem. Há também situações específicas em que a legislação atribui relevância penal ao uso de recursos tecnológicos, sobretudo em crimes envolvendo crianças e adolescentes.

Investigação e responsabilização enfrentam novos obstáculos

A inteligência artificial aumenta a capacidade de produção dos criminosos e dificulta a identificação dos responsáveis. Um único operador pode criar dezenas de conteúdos falsos em pouco tempo, testar diferentes abordagens e atingir vítimas em várias regiões do país.

Além disso, os materiais podem ser distribuídos por contas temporárias, números descartáveis e plataformas estrangeiras. A remoção do conteúdo não elimina necessariamente as cópias, que podem continuar circulando em aplicativos de mensagens e redes sociais.

A coleta de provas também se torna mais complexa. A investigação precisa preservar arquivos originais, registros de acesso, metadados, conversas, dados de pagamento e informações sobre os dispositivos utilizados. Sem esse conjunto de elementos, pode ser difícil demonstrar a origem do conteúdo e relacioná-lo aos autores da fraude.

Outro desafio é diferenciar uma gravação legítima de um material sintético. Embora existam ferramentas de detecção, elas não são infalíveis. A qualidade do áudio, o ruído ambiente, a compressão do arquivo e o avanço constante dos modelos de IA podem comprometer a análise automatizada.

Eleições também entram no radar

O uso criminoso da IA não se limita ao setor financeiro. Em junho, o Tribunal Superior Eleitoral firmou acordo com a ElevenLabs para combater a clonagem não autorizada das vozes de candidatos e autoridades durante as eleições de 2026.

A iniciativa prevê mecanismos de proteção e apoio à identificação de áudios sintéticos usados de forma fraudulenta. A preocupação é que gravações falsas sejam utilizadas para atribuir declarações inexistentes a candidatos, estimular conflitos ou influenciar a decisão dos eleitores.

Decisões recentes envolvendo vídeos manipulados reforçam que o problema alcança toda a esfera política e institucional. Conteúdos falsos podem causar danos à reputação, provocar instabilidade e disseminar informações enganosas em poucos minutos.

Como reduzir o risco de cair em um deepfake

A principal recomendação é não tomar decisões financeiras com base em uma única ligação, mensagem de áudio ou vídeo. Mesmo que a voz pareça familiar, o contato deve ser confirmado por outro canal, utilizando um número já conhecido ou uma conversa presencial.

Também é importante desconfiar de pedidos urgentes, ameaças, promessas de vantagem e solicitações para manter o contato em segredo. Golpistas costumam pressionar a vítima para impedir que ela consulte familiares, bancos, advogados ou autoridades.

Antes de realizar uma transferência, a pessoa deve conferir o nome do favorecido, o banco, o CPF ou CNPJ e o motivo do pagamento. Se houver qualquer divergência, a operação deve ser interrompida até que a situação seja esclarecida.

Empresas podem reduzir os riscos adotando procedimentos de confirmação para pagamentos, alteração de dados bancários e solicitações feitas por executivos. A exigência de dupla aprovação, autenticação multifator e validação por canais independentes ajuda a impedir que uma voz ou imagem falsificada seja suficiente para autorizar uma transação.

A tendência é que o Direito Penal, a perícia digital e os mecanismos de segurança passem a considerar cada vez mais o potencial da IA para ampliar fraudes, aumentar o alcance dos ataques e dificultar a localização dos autores. Ao mesmo tempo, a prevenção dependerá da combinação entre tecnologia, educação digital, controles internos e comportamento cuidadoso dos usuários.