América Latina é a segunda região mais exposta a ciberameaças industriais, aponta relatório da Kaspersky. O cenário preocupa: enquanto o resto do mundo mostra sinais de leve melhora, as empresas latino‑americanas que operam ambientes industriais seguem mais vulneráveis a ataques que começam no perímetro de TI e avançam até os sistemas de automação e controle.
De acordo com a análise mais recente do Kaspersky ICS CERT, 20,4% dos computadores de Sistemas de Controle Industrial (ICS) na América Latina sofreram tentativas de infecção por objetos maliciosos no período analisado. Esse índice coloca a região como a segunda mais exposta a ameaças direcionadas ao perímetro de ambientes industriais. Em comparação, a média global de ICS afetados foi de 19,7%, o nível mais baixo desde 2022, indicando que, enquanto o risco mundial dá sinais de queda, a realidade latino‑americana segue mais crítica.
O estudo mostra que a porta de entrada preferida dos atacantes continua sendo o e‑mail corporativo. Na América Latina, 5,3% dos computadores industriais foram expostos a ameaças vindas de mensagens maliciosas – um índice 1,9 vez maior do que a média mundial. Em outras palavras, os colaboradores seguem clicando em anexos e links perigosos que, por sua vez, abrem caminho para invasões silenciosas em ambientes que deveriam ser altamente protegidos.
Ao observar os países da região, o relatório destaca que Brasil, Colômbia, Argentina e Chile permanecem dentro de um patamar considerado típico para o contexto latino‑americano. Entretanto, o México se destaca negativamente com folga: 9,51% dos equipamentos industriais foram impactados por ameaças via e‑mail, quase o dobro de muitos vizinhos. Em seguida aparece o Uruguai, com 8,56% dos computadores ICS expostos a ataques pelo mesmo vetor.
Outro eixo crítico identificado pela Kaspersky é o uso de scripts maliciosos e páginas de phishing. Esses recursos são especialmente usados para roubar credenciais e outros dados de autenticação de funcionários, um tipo de informação que permite aos criminosos se infiltrar com mais discrição nas redes corporativas. Na América Latina, 9,65% dos computadores industriais foram alvo desse tipo de ameaça. Nesse recorte, o Panamá se sobressaiu como o país mais afetado, com 18,24% dos ICS expostos, impulsionado por uma onda de campanhas focadas na exploração e comprometimento de sites governamentais desenvolvidos em WordPress.
No detalhamento setorial, o monitoramento da Kaspersky apontou seis segmentos industriais latino‑americanos com os maiores índices de bloqueio de atividade maliciosa em seus ambientes de tecnologia operacional (OT). Entre eles estão setores como biometria, automação predial e construção civil, que dependem cada vez mais de sistemas conectados para gerenciar acesso físico, controlar infraestrutura de edifícios, monitorar obras e integrar dispositivos inteligentes. Esses ambientes, muitas vezes projetados para operar de forma contínua e com alta disponibilidade, tornam‑se alvos atrativos quando não são protegidos com o mesmo rigor aplicado ao ambiente de TI tradicional.
Segundo David da Silva Alves, especialista em cibersegurança para ambientes industriais da Kaspersky na América Latina, o quadro deixa um recado claro: o e‑mail segue como o elo mais explorado pelos criminosos para atingir a tecnologia operacional. Ele destaca que o uso de documentos maliciosos, spyware e outros artefatos em campanhas de phishing não tem, na maioria dos casos, o objetivo de derrubar imediatamente uma planta industrial ou interromper um serviço essencial. A estratégia é obter, de forma silenciosa, um acesso inicial legítimo – por exemplo, pela captura de credenciais válidas.
Com essas credenciais em mãos, os atacantes conseguem se movimentar lateralmente pelas redes corporativas, explorando conexões entre TI e OT até alcançar sistemas de controle de processos críticos. A partir desse ponto, o risco aumenta exponencialmente: é possível provocar incidentes operacionais relevantes, interferir em linhas de produção, comprometer sistemas de energia e até preparar o terreno para a implantação de ransomware, com potencial de gerar perdas financeiras significativas e danos à reputação.
Esse tipo de ameaça é particularmente perigoso em ambientes industriais porque muitos sistemas OT foram projetados décadas atrás, em uma época em que a conexão à internet e a exposição a redes externas não eram um requisito. O resultado é uma base de equipamentos e softwares que nem sempre suporta mecanismos modernos de proteção, como atualizações frequentes, autenticação robusta ou segmentação avançada de rede. Quando esses ativos antigos passam a ser integrados a sistemas corporativos e nuvem, a superfície de ataque se amplia e as brechas aparecem.
Além disso, a pressão por eficiência, automação e redução de custos leva muitas organizações a conectarem sensores, controladores, câmeras e dispositivos de acesso físico sem um planejamento de segurança proporcional. Sistemas de biometria, catracas inteligentes, painéis de automação predial, elevadores conectados e dispositivos de IoT instalados em obras de construção tendem a ser gerenciados por equipes pequenas, frequentemente com foco operacional, e não em segurança digital. Isso cria um descompasso entre o avanço tecnológico e o nível de proteção efetivamente aplicado.
Outro ponto crítico é o fator humano. A combinação de baixa maturidade em segurança da informação, falta de treinamento adequado e cultura de “produtividade acima de tudo” facilita a vida dos golpistas. Funcionários de áreas operacionais, muitas vezes sem formação em TI, tornam‑se alvos de campanhas de phishing bem elaboradas, com e‑mails que simulam comunicados internos, notas fiscais, plantas de projetos, chamados de manutenção ou atualizações de sistemas industriais. Um único clique pode ser suficiente para inserir um trojan em uma estação de engenharia ou em um computador que administra acessos a um prédio inteiro.
Do ponto de vista de governança, ainda é comum encontrar empresas em que TI e OT funcionam como “ilhas” isoladas, com pouca comunicação entre as equipes. Enquanto o time de TI possui algum nível de processo, monitoramento e políticas de segurança, o ambiente industrial segue operando com regras próprias, muitas vezes tolerando senhas fracas, compartilhadas entre turnos, contas genéricas para operadores e uso de sistemas desatualizados. Os criminosos exploram exatamente essas assimetrias, entrando por onde a resistência é menor.
Para reverter esse cenário e fortalecer a resiliência cibernética na América Latina, especialistas recomendam uma abordagem integrada que considere o ciclo completo de ataque. A primeira camada envolve a proteção do perímetro de TI – com filtros avançados de e‑mail, detecção de phishing, análise de anexos e links e monitoramento de anomalias em endpoints. Em paralelo, é essencial reduzir a probabilidade de erro humano por meio de programas contínuos de conscientização, treinamentos práticos e simulações de ataques em todos os níveis da organização, incluindo equipes de campo e de operação.
No ambiente de OT, a prioridade deve ser a segmentação de redes, evitando conexões diretas e não controladas entre sistemas industriais e a internet ou a rede corporativa. A criação de zonas de segurança, o uso de firewalls industriais, a adoção de autenticação forte para acesso remoto e o princípio do menor privilégio para contas de operadores são medidas fundamentais. Sempre que possível, recomenda‑se aplicar correções de segurança e atualizações em equipamentos industriais, planejando janelas de manutenção que permitam reduzir a exposição sem comprometer a continuidade operacional.
A visibilidade também é um pilar. Organizações que operam ICS e OT precisam saber exatamente quais ativos possuem, quais protocolos utilizam, onde estão as interconexões com TI e quais sistemas conversam entre si. Soluções específicas para monitoramento de ambientes industriais podem identificar comportamentos anômalos, comunicações não esperadas entre dispositivos e tentativas de exploração de vulnerabilidades conhecidas, permitindo reação mais rápida antes que o ataque avance para fases mais destrutivas.
Planejamento de resposta a incidentes é outro elemento muitas vezes negligenciado. Em caso de ataque bem‑sucedido, é fundamental que a empresa saiba, de antemão, quem decide o quê, quais sistemas podem ser desligados, que processos críticos não podem parar de forma abrupta e quais são os caminhos alternativos de operação. Testes periódicos de plano de resposta, com simulações que envolvam tanto times de TI quanto equipes de produção e manutenção, ajudam a diminuir o tempo de contenção e recuperação.
Por fim, a alta gestão precisa enxergar segurança cibernética industrial não apenas como um tema técnico, mas como uma questão estratégica de continuidade de negócios. Setores como energia, construção, automação predial, logística e manufatura dependem de processos contínuos. Uma interrupção provocada por ransomware ou por um ataque que manipule sistemas de controle pode resultar em perda de contratos, multas regulatórias, impactos à segurança física de pessoas e danos à confiança de clientes e parceiros.
O relatório da Kaspersky acende um alerta específico para a América Latina: a região está avançando em digitalização industrial, mas ainda carrega um déficit relevante de proteção. A combinação de alta exposição a phishing, uso disseminado de scripts maliciosos, dependência de credenciais frágeis e integração crescente entre TI e OT cria um terreno fértil para ataques complexos. Reduzir esse risco exige investimento, mudanças culturais e cooperação entre áreas técnicas, jurídicas, de compliance e de negócios.
Enquanto a média global de ICS afetados por ameaças digitais começa a recuar, a América Latina não pode se acomodar na posição de segunda região mais exposta. Cada porcentagem de redução em incidentes potenciais representa menos chance de interrupções operacionais, menos margem para extorsão com ransomware e mais estabilidade para setores críticos que sustentam a economia e o cotidiano de milhões de pessoas.
