Vulnerabilidades em iot e riscos ao pedágio free flow exigem cibersegurança no brasil

Vulnerabilidades e riscos em IoT podem expor o pedágio free flow no Brasil

Por Eduardo Gomes, Gerente de Cibersegurança na TÜV Rheinland

Em novembro passado, a rodovia Presidente Dutra (BR‑116/SP) passou a operar com cobrança proporcional por quilômetro, consolidando o primeiro trecho brasileiro de grande porte com o modelo de pedágio eletrônico sem cancela – o chamado free flow. A experiência inaugural do país, porém, já havia sido implementada em 2023 na BR‑101/RJ (Rio‑Santos), abrindo caminho para uma mudança estrutural na forma como o usuário paga pelo uso das rodovias.

Amparado por regulamentações recentes, o free flow vem sendo apresentado como uma resposta moderna à necessidade de tornar o trânsito mais fluido e a cobrança mais justa, alinhada ao uso real da via. O motorista deixa de parar em praças físicas, reduz congestionamentos e ganha tempo. Contudo, por trás dessa conveniência está uma infraestrutura digital complexa, classificada como crítica, que depende intensamente de dispositivos IoT, redes de comunicação e sistemas integrados – e que, em outros países, já se mostrou vulnerável a ataques cibernéticos.

Casos internacionais mostram o tamanho do risco

A experiência global ilustra que sistemas de mobilidade conectados são alvo frequente de cibercriminosos. Em 2017, na Austrália, 55 câmeras de trânsito foram comprometidas pelo ransomware WannaCry. A infecção resultou na criptografia de dados e na interrupção parcial das operações, evidenciando que um único vetor de ataque pode afetar toda a cadeia de monitoramento e fiscalização.

Dois anos depois, nos Estados Unidos, invasores exploraram falhas em uma empresa fornecedora de tecnologia de pedágio e obtiveram acesso indevido a sistemas de captura de imagens. O incidente resultou no vazamento de aproximadamente 105 mil fotos de placas e rostos de motoristas, expondo não apenas informações operacionais, mas também dados altamente sensíveis, com impactos diretos na privacidade dos cidadãos.

No Brasil, os golpes ligados ao free flow seguem uma dinâmica diferente, mas igualmente preocupante. Criminosos têm usado dados reais de veículos e condutores, obtidos em vazamentos externos, para criar sites falsos que simulam avisos e cobranças de pedágio eletrônico. Embora esses incidentes não tenham, até o momento, comprometido diretamente a infraestrutura de pedágio, revelam como brechas em ecossistemas paralelos podem afetar a confiança no modelo, servir de vetor para fraudes e pressionar ainda mais a necessidade de blindar concessionárias, integradores e fornecedores.

O que muda com o free flow: dependência total da tecnologia

A principal distinção entre o free flow e o pedágio tradicional com cancelas está no grau de dependência dos meios digitais. No modelo antigo, existia sempre uma camada física de barreira: a praça de pedágio, o guichê, o operador, o pagamento em dinheiro ou cartão. No free flow, a identificação do veículo, o registro da passagem e a cobrança são totalmente automatizados, baseando‑se em sistemas IoT, sensores, câmeras, bases de dados e integrações com meios de pagamento.

Na prática, cada elemento dessa cadeia transforma‑se em uma possível superfície de ataque. Equipamentos de campo instalados nos pórticos, servidores de processamento, redes de comunicação, sistemas de faturamento e até interfaces de atendimento ao usuário precisam operar de forma coordenada e segura. Uma falha em qualquer elo pode causar desde cobranças indevidas até paralisações de serviço ou exposição massiva de dados pessoais.

IoT e câmeras OCR: os pontos mais expostos

Entre os componentes mais críticos do free flow estão as câmeras OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres), responsáveis pela leitura automática das placas. Esses dispositivos, geralmente conectados em rede e integrados a outros sistemas, são parte do universo de Internet das Coisas (IoT) e, como tal, herdam muitas das vulnerabilidades comuns a esse tipo de tecnologia.

Estudos recentes já identificaram falhas graves em câmeras de leitura automática de placas (ALPR). Um boletim técnico divulgado por órgão de segurança cibernética dos Estados Unidos detalhou sete vulnerabilidades em modelos amplamente utilizados de câmeras ALPR, incluindo ausência de criptografia de dados em trânsito, credenciais padrão não alteradas e interfaces de administração expostas à internet.

Em um dos casos analisados, verificou‑se que todas as câmeras de um fabricante eram entregues com a rede Wi‑Fi ativada por padrão e com a mesma senha definida de fábrica para todos os dispositivos. Na prática, qualquer pessoa que obtivesse essa senha poderia se conectar diretamente às câmeras, interceptar dados ou, em cenários mais graves, alterar configurações críticas e comprometer a leitura das placas.

Além das câmeras, outros sensores e controladores de campo – como unidades de processamento locais, dispositivos de comunicação e equipamentos auxiliares de monitoramento – também integram o ecossistema IoT do pedágio free flow. Se não forem desenvolvidos e configurados segundo boas práticas de segurança, eles podem abrir portas para ataques remotos, movimentação lateral dentro da rede e acesso a sistemas centrais.

Redes de comunicação: segurança e resiliência lado a lado

Outro pilar sensível são as redes que conectam todos os componentes do ambiente de pedágio. Informações de passagem de veículos percorrem um caminho que vai dos pórticos aos centros de controle regionais e, posteriormente, aos sistemas de retaguarda, faturamento e relacionamento com o usuário. Esse fluxo, na maioria dos casos, acontece em tempo quase real, utilizando infraestruturas de fibra óptica, enlaces de rádio de longa distância ou redes móveis dedicadas e segmentadas.

Nesse contexto, a segurança não é o único requisito: a resiliência operacional torna‑se igualmente essencial. É imprescindível prever rotas alternativas, redundância de enlaces, mecanismos automatizados de failover e soluções de armazenamento temporário (buffer) nos dispositivos de campo. Assim, mesmo que ocorra a perda momentânea de link, os registros de passagem são preservados localmente e enviados assim que a conexão for restabelecida, evitando perdas de dados e divergências de cobrança.

Camadas adicionais de proteção, como criptografia de dados em trânsito, segmentação lógica de redes (VLANs), uso de VPNs, autenticação forte entre equipamentos e monitoramento contínuo de tráfego, são fundamentais para mitigar riscos de interceptação, manipulação de dados e acessos não autorizados. A adoção de padrões industriais de segurança de redes críticas também contribui para reduzir a superfície de ataque e aumentar a detecção precoce de anomalias.

Dados pessoais sob vigilância constante

A segurança no free flow não se restringe à continuidade operacional ou ao aspecto financeiro. Há uma dimensão igualmente importante: a proteção da privacidade dos usuários. Cada vez que um veículo passa sob um pórtico, são gerados registros com placa, data, hora, localização e, muitas vezes, imagens do automóvel e do próprio condutor.

Quando esses registros se repetem ao longo de múltiplos pórticos em uma mesma rodovia ou rede rodoviária, torna‑se possível mapear com precisão a rota de deslocamento de um veículo, frequência de viagens, horários de ida e volta ao trabalho, visitas recorrentes a determinados locais e até padrões de comportamento. Em outras palavras, o sistema pode, potencialmente, reconstruir rotinas inteiras de indivíduos.

Por sua natureza, esses dados enquadram‑se como pessoais – e, em alguns cenários, sensíveis – à luz da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Isso impõe deveres legais rigorosos às concessionárias, operadores, órgãos públicos e demais empresas envolvidas no tratamento dessas informações. Entre essas obrigações estão a definição de bases legais adequadas para o tratamento, limitação do uso à finalidade específica, transparência com o titular e adoção de medidas técnicas e administrativas para garantir confidencialidade, integridade e disponibilidade.

Segurança por design: da arquitetura à operação

Em um contexto tão sensível, a simples adição de soluções de segurança ao final do projeto não é suficiente. O modelo free flow exige a incorporação da segurança desde a fase de concepção – o que se denomina segurança por design. Isso implica considerar ameaças cibernéticas e riscos à privacidade em todas as etapas: desenho da arquitetura, escolha dos fornecedores, desenvolvimento de software, configuração de dispositivos, testes e operação contínua.

Do ponto de vista arquitetural, é recomendável segmentar ambientes, separar redes administrativas de redes operacionais, minimizar o acesso direto à internet e limitar o número de interfaces expostas. Também é importante que os equipamentos IoT utilizados sejam avaliados quanto ao ciclo de vida de suporte, frequência de atualização de firmware, histórico de vulnerabilidades e aderência a padrões de segurança.

Na operação, processos como gestão de vulnerabilidades, aplicação de patches, monitoramento de logs, resposta a incidentes e testes periódicos de intrusão precisam ser estruturados, documentados e integrados à rotina da concessionária e dos parceiros tecnológicos. A capacitação de equipes de campo e de backoffice também se torna indispensável, uma vez que erros de configuração e falhas humanas frequentemente abrem mais brechas do que as vulnerabilidades técnicas em si.

Governança, transparência e confiança do usuário

Para que o modelo free flow seja amplamente aceito pela sociedade, não basta ser tecnicamente eficiente: é necessário ser percebido como justo, confiável e respeitoso com a privacidade. Isso passa por uma governança robusta sobre o uso dos dados, com políticas claras de retenção, anonimização sempre que possível e limitação de compartilhamento apenas ao estritamente necessário para a finalidade de cobrança e cumprimento de obrigações legais.

A transparência é um fator decisivo. Usuários precisam saber quais dados são coletados, para que servem, por quanto tempo serão guardados e com quem poderão ser compartilhados. Canais de atendimento para esclarecimento de dúvidas, processos para exercício de direitos previstos na LGPD e comunicação responsável em caso de incidentes de segurança contribuem para fortalecer a confiança.

Integração com outros sistemas e o efeito cascata de vulnerabilidades

O ecossistema do pedágio free flow não opera isoladamente. Ele se integra a bases de dados governamentais, sistemas de registro de veículos, plataformas de pagamento, aplicativos de mobilidade e soluções de atendimento digital. Essa interconexão amplia a eficiência, mas também aumenta o risco de “efeito cascata”: uma brecha em um sistema externo pode ser explorada como porta de entrada para outros ambientes relacionados.

Por isso, o gerenciamento de riscos deve contemplar não apenas a infraestrutura interna da concessionária, mas também a cadeia de fornecedores e parceiros. Contratos precisam incluir requisitos de segurança claros, auditorias periódicas, critérios mínimos de proteção de dados e mecanismos de responsabilização. A troca de informações sensíveis entre organizações deve ocorrer sempre sob criptografia robusta e com controles adequados de autenticação e autorização.

Recomendações práticas para mitigar riscos no free flow

Para reduzir as chances de exploração de vulnerabilidades e minimizar o impacto de incidentes, algumas medidas práticas se destacam:

– Exigir que fabricantes de câmeras, sensores e demais dispositivos IoT adotem padrões de segurança elevados, com desativação de credenciais padrão, atualizações frequentes de firmware e suporte a criptografia forte.
– Implementar segmentação de redes, firewalls específicos para ambientes industriais/IoT e monitoramento contínuo de tráfego para detectar comportamentos anômalos.
– Estabelecer processos formais de gestão de vulnerabilidades, inclusive com testes de segurança regulares (varreduras, pentests e avaliações de arquitetura).
– Definir políticas claras de retenção de dados, minimização de coleta e anonimização de informações quando o dado pessoal não for mais necessário para a finalidade original.
– Treinar equipes técnicas e operacionais em boas práticas de segurança da informação e em procedimentos de resposta a incidentes.
– Manter planos de continuidade de negócios e recuperação de desastres que considerem cenários específicos de ataques cibernéticos à infraestrutura de pedágio.

O futuro do pedágio digital e o papel da cibersegurança

À medida que o free flow avança no Brasil e se consolida como tendência para novas concessões, a discussão sobre cibersegurança e privacidade deixará de ser um tema apenas técnico para se tornar um componente central de política pública, regulação e confiança social. Rodovias inteligentes, carros conectados e integração com outros serviços de mobilidade formarão um ambiente ainda mais interdependente e sensível.

Nesse cenário, tratar a segurança como diferencial opcional deixa de fazer sentido. Ela passa a ser um requisito de projeto, de contrato e de operação contínua. Investir em proteção hoje significa evitar interrupções de serviço, fraudes, danos à reputação e, sobretudo, preservar os direitos e a privacidade dos milhões de cidadãos que utilizam diariamente as rodovias brasileiras.

O pedágio free flow representa um avanço importante em eficiência e comodidade. Sua consolidação, porém, dependerá diretamente da capacidade de todos os atores envolvidos – poder público, concessionárias, fabricantes e provedores de tecnologia – em construir um ecossistema digital resiliente, ético e seguro, capaz de entregar inovação sem abrir mão da proteção de dados e da confiança do usuário.