Queda nas tentativas de fraude, mas montante bloqueado segue expressivo no e-commerce brasileiro
O mais recente Índice de Fraude da Equifax BoaVista revelou que 2,5% das transações digitais avaliadas em fevereiro foram barradas por suspeita de fraude. O percentual mostra um recuo de 7,8 pontos percentuais em comparação com janeiro, sinalizando que, proporcionalmente, houve menos tentativas fraudulentas. A pesquisa levou em conta mais de 55 milhões de operações realizadas em ambientes de comércio eletrônico no Brasil ao longo do mês.
Embora o volume relativo de fraudes tenha diminuído, o impacto financeiro das transações suspeitas continua relevante. Somente em fevereiro, mais de R$ 329 milhões deixaram de ser efetivados por terem sido identificados com indícios de fraude e, consequentemente, bloqueados pelos sistemas de proteção. Ou seja, a “qualidade” das tentativas – em termos de valores envolvidos – permanece alta, mesmo com a queda no índice geral.
O ticket médio das operações classificadas como fraudulentas atingiu R$ 1.048,95 no período, valor 8,5% superior ao observado em janeiro. Em uma perspectiva de 12 meses, o salto é ainda mais expressivo: crescimento de 51,5% no valor médio das fraudes, enquanto o próprio índice de fraude recuou 59 pontos percentuais no mesmo intervalo. Esse descompasso deixa claro que os criminosos estão diminuindo o número de tentativas, mas focando em transações com potencial de prejuízo muito maior.
Para Juliano Manrique, diretor de Produtos Antifraude da Equifax BoaVista, os resultados reforçam a urgência de um acompanhamento contínuo de todas as etapas das transações digitais, do cadastro inicial ao pagamento. Ele destaca que apenas soluções antifraude sofisticadas, com capacidade de análise em tempo real e baseadas em comportamento, conseguem detectar desvios sutis que indicam o uso indevido de dados ou acessos não autorizados.
Segundo o executivo, há uma mudança de estratégia em curso entre os fraudadores. Em vez de apostar em um grande volume de pequenas compras para “passar despercebido”, o foco migra para menos tentativas, porém com valores significativamente mais altos. Esse padrão permite que os criminosos maximizem o ganho potencial ao mesmo tempo em que tentam reduzir a exposição e o risco de serem identificados rapidamente.
Essa reconfiguração do cenário impõe um desafio adicional para empresas de todos os portes. Negócios que tradicionalmente se preocupavam mais com fraudes de baixo valor, mas em grande escala, agora precisam reforçar mecanismos voltados à proteção de operações de tíquete médio e alto, como a venda de eletrônicos, produtos de luxo, passagens aéreas e serviços recorrentes. Em muitos casos, a perda de uma única transação fraudulenta pode representar o lucro de vários dias de operação.
Outro ponto sensível é o equilíbrio entre segurança e experiência do cliente. Ferramentas antifraude muito rígidas podem barrar transações legítimas, prejudicar a conversão de vendas e gerar atrito com consumidores fiéis. Por isso, cresce a adoção de soluções baseadas em inteligência artificial e machine learning, que aprendem a distinguir padrões de consumo habituais de comportamentos efetivamente suspeitos, reduzindo falsos positivos e mantendo o nível de proteção elevado.
Na prática, a defesa contra fraudes digitais hoje vai além de simples validações de CPF ou confirmação de endereço. Plataformas mais avançadas analisam variáveis como geolocalização, histórico de navegação, dispositivo utilizado, horário da compra, velocidade de preenchimento de dados, entre outros fatores. Com isso, formam uma “impressão digital” do usuário, capaz de apontar quando há algo destoando do padrão, mesmo que os dados inseridos sejam verdadeiros, mas obtidos de forma criminosa.
Para o varejo online, a leitura dos indicadores traz alguns recados claros. A queda no índice de fraudes sugere que as barreiras de segurança estão funcionando melhor em termos de filtragem e prevenção. Porém, o volume de dinheiro envolvido nas transações bloqueadas mostra que qualquer descuido pode ter um custo elevado. Investir em monitoramento contínuo, revisão de políticas de risco e integração entre áreas de fraude, segurança da informação e atendimento ao cliente deixa de ser diferencial e se torna questão de sobrevivência.
Do lado do consumidor, o cenário também exige atenção redobrada. O aumento do ticket médio das fraudes indica que dados pessoais e financeiros roubados tendem a ser utilizados de forma “cirúrgica”, em compras mais caras e geralmente em plataformas confiáveis, onde se presume um grau maior de segurança. Mantê-los protegidos – com senhas fortes, autenticação em dois fatores e cuidado ao compartilhar informações – torna-se fundamental para não alimentar esse mercado criminoso.
Empresas que desejam reduzir sua exposição a esse tipo de risco precisam construir uma estratégia integrada de prevenção. Isso inclui a escolha de parceiros especializados em análise de risco, a adoção de sistemas de monitoramento em tempo real, a atualização constante das regras antifraude e, principalmente, o uso combinado de dados internos e externos para enriquecer a tomada de decisão. Quanto mais contexto se tem sobre o cliente e a transação, maior a precisão na identificação de golpes.
Outro fator decisivo é a capacitação das equipes internas. Profissionais de e-commerce, meios de pagamento, atendimento e finanças devem compreender como os fraudadores atuam, quais sinais de alerta merecem atenção e em que momento uma transação deve ser revista manualmente. A tecnologia é indispensável, mas a leitura crítica e a experiência das equipes ainda desempenham papel importante, especialmente nos casos mais sofisticados.
Em paralelo, a maturidade em governança de dados e segurança da informação influencia diretamente o nível de vulnerabilidade das empresas. Ambientes em nuvem, soluções SaaS, integrações via API e múltiplos fornecedores aumentam a superfície de ataque. Sem uma gestão consistente de acessos, criptografia, monitoramento de incidentes e planos de resposta, as organizações se tornam alvos fáceis tanto para invasões quanto para vazamentos que alimentam esquemas de fraude.
O movimento observado no índice da Equifax BoaVista também deve servir de alerta para setores que ainda veem a fraude como um problema restrito ao varejo online. Serviços financeiros, telecomunicações, saúde, educação e até utilities enfrentam tentativas semelhantes de abertura de contas falsas, contratação indevida de serviços e uso de identidades sintéticas. A lógica é a mesma: menos tentativas, tíquete mais alto e foco em operações que tragam retorno rápido aos criminosos.
Em resumo, o quadro atual combina uma boa notícia com um sinal amarelo: há, de fato, avanços na redução da proporção de transações fraudulentas, mas o valor envolvido em cada tentativa cresce de forma consistente. Para negócios digitais, isso significa que não basta reduzir o número de ataques; é preciso evitar que as poucas tentativas que passam pelos filtros representem prejuízos significativos. A combinação de tecnologia de ponta, processos bem estruturados e educação de usuários é hoje o caminho mais sólido para diminuir esse impacto.