Colaboração internacional em cibersegurança: brasil, alemanha e nova zelândia

Colaboração internacional de cibersegurança: como a parceria entre Brasil, Alemanha e Nova Zelândia está redefinindo a defesa digital

A rápida escalada dos ataques cibernéticos no Brasil transformou a segurança digital em tema estratégico de Estado e de negócios. Em apenas um ano, o volume médio de ofensivas mensais contra órgãos públicos brasileiros mais que triplicou. Entre janeiro e fevereiro de 2025, o Gabinete de Segurança Institucional registrava cerca de 1.500 notificações de ataques e tentativas de invasão a sistemas governamentais. No mesmo período deste ano, o número ultrapassou 4.600 ocorrências mensais, de acordo com o Centro de Prevenção, Tratamento e Respostas a Incidentes Cibernéticos do Governo Federal.

No setor privado, o cenário é igualmente preocupante. Levantamentos internacionais apontam que 72% das empresas perceberam aumento significativo nos riscos cibernéticos no último ano, com destaque para fraude digital, phishing e roubo de identidade. Não se trata mais de incidentes pontuais, e sim de uma realidade marcada por ameaças sistêmicas, sofisticadas e altamente coordenadas.

Diante desse contexto, respostas isoladas e pontuais não são mais suficientes. A defesa cibernética exige uma reformulação estrutural das estratégias de proteção, com integração entre países, troca de conhecimento e desenvolvimento conjunto de tecnologias avançadas. É nesse ponto que ganha relevância a rede de colaboração científica entre Brasil, Alemanha e Nova Zelândia, voltada à pesquisa e ao enfrentamento de ataques em larga escala.

Uma rede global para enfrentar ataques DDoS com Inteligência Artificial

O foco central dessa rede internacional é estudar e mitigar, em tempo de execução, ataques de negação de serviço distribuídos (DDoS) – um dos tipos de ofensiva mais usados por grupos criminosos e ativistas digitais – por meio de técnicas de Inteligência Artificial aplicadas à defesa de redes.

A iniciativa está alinhada ao programa Conhecimento Brasil, do CNPq/MCTI, e reúne instituições brasileiras e estrangeiras com forte atuação em ciência da computação e cibersegurança:
– Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
– Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
– Universidade Federal do Rio Grande (FURG)
– Max Planck Institute for Informatics (Alemanha)
– University of Waikato (Nova Zelândia)
– University of Wellington (Nova Zelândia)

O objetivo é claro: ampliar a capacidade técnica brasileira, acelerar a inovação em segurança digital e fortalecer a posição do país no cenário global de cibersegurança, aproximando a pesquisa acadêmica de problemas concretos enfrentados por governos e empresas.

Machine Learning e Aprendizado Online na linha de frente da defesa

A colaboração se concentra em abordagens baseadas em Aprendizado de Máquina e Aprendizado Online, aplicadas à detecção, mitigação e adaptação a ataques distribuídos em larga escala. Em ataques DDoS modernos, os padrões de tráfego malicioso mudam com rapidez, os botnets se adaptam e os atacantes testam continuamente novas táticas.

Nesse contexto, técnicas tradicionais de detecção baseadas apenas em assinaturas ou regras estáticas se tornam insuficientes. Modelos de IA capazes de aprender com o tráfego em tempo real, atualizar parâmetros à medida que a ameaça evolui e tomar decisões em frações de segundo passam a ser essenciais.

As universidades neozelandesas envolvidas na parceria são reconhecidas internacionalmente por sua expertise em Inteligência Artificial e por desenvolverem ferramentas amplamente utilizadas por pesquisadores de cibersegurança em todo o mundo. Além disso, promovem desafios técnicos e competições na área, estimulando a criação de soluções inovadoras e a formação de profissionais especializados.

A missão técnica de Michele Nogueira na Nova Zelândia

No escopo do projeto, a professora e pesquisadora Michele Nogueira, doutora em Ciência da Computação pela Universidade de Sorbonne e docente da UFMG, realizou recentemente uma missão técnica internacional na University of Waikato, na Nova Zelândia.

A visita teve caráter estratégico: aprofundar o intercâmbio científico em segurança da Internet, com especial ênfase em métodos de Aprendizado de Máquina para proteção de redes. A agenda da pesquisadora incluiu:
– Palestras sobre cibersegurança e IA para alunos de graduação e pós-graduação
– Reuniões de planejamento com pesquisadores locais
– Integração de estudantes brasileiros e neozelandeses em projetos conjuntos
– Discussão de propostas de novos projetos, seminários e eventos técnicos

Essa missão não é um episódio isolado, mas parte de uma sequência planejada de intercâmbios que envolvem outros docentes brasileiros e prevêem a vinda de professores da Nova Zelândia ao Brasil, reforçando o caráter de cooperação de longo prazo.

Ativos estratégicos e ganhos para o Brasil

Um dos pontos centrais da colaboração é o acesso a ativos e recursos que não estão disponíveis localmente. Trata-se, por exemplo, de grandes bases de dados de tráfego de rede, ambientes de teste avançados, ferramentas de IA específicas para cibersegurança e infraestruturas de simulação de ataques de alta escala.

Como explica Michele Nogueira, a rede permite ao Brasil treinar e validar modelos em contextos mais variados e realistas, algo essencial para que as soluções desenvolvidas sejam eficazes diante de ameaças globais. Ao mesmo tempo, a interação entre pesquisadores e alunos de diferentes países estimula a formação de equipes multidisciplinares e multiculturais, ampliando o horizonte da pesquisa nacional.

Além disso, a parceria abre portas para:
– Captação de novos recursos para instituições brasileiras
– Coorientação de teses e dissertações
– Publicações conjuntas em revistas e conferências de alto impacto
– Criação de projetos que conectam academia, governo e setor privado

O papel do INCT em IA e Cibersegurança

As atividades da rede de colaboração se articulam com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Inteligência Artificial e Cibersegurança, sediado na UFMG. O instituto funciona como um hub de pesquisa avançada, integrando grupos de diferentes universidades e estabelecendo parcerias internacionais estratégicas, como a com a University of Waikato.

A meta é gerar resultados perenes, que extrapolem a duração de projetos pontuais. Entre as ações planejadas estão:
– Submissão de novos projetos de pesquisa multilaterais
– Realização de seminários e webinares temáticos
– Organização de escolas de verão e cursos intensivos para formação de especialistas
– Desenvolvimento de ferramentas abertas que possam ser usadas por órgãos públicos e empresas

Segundo a pesquisadora, há um planejamento estruturado com uma série de atividades que serão desdobradas a partir dessas conversas iniciais, consolidando a cooperação em um programa contínuo de inovação em segurança digital.

Diversidade e liderança feminina na cibersegurança

Um aspecto relevante dessa colaboração internacional é o fortalecimento da liderança feminina na área de cibersegurança, tradicionalmente dominada por homens. A atuação de pesquisadoras como Michele Nogueira em posições de protagonismo acadêmico e científico contribui para romper barreiras históricas e inspirar novas gerações de mulheres a ingressar em carreiras de tecnologia e segurança da informação.

A presença de mulheres em cargos de liderança em projetos internacionais de alto impacto traz perspectivas diversas para o desenho de soluções, definição de prioridades e análise de riscos. Diferentes experiências de vida e trajetórias profissionais ajudam a enriquecer o debate sobre privacidade, ética em IA, proteção de dados sensíveis e impacto social dos ataques cibernéticos.

Promover diversidade, nesse contexto, não é apenas uma questão de representatividade, mas um fator concreto de qualidade e inovação em cibersegurança. Equipes plurais tendem a identificar vulnerabilidades de forma mais abrangente, questionar suposições técnicas e antecipar cenários que poderiam passar despercebidos em grupos homogêneos.

Por que a cooperação internacional é crucial na era dos ataques globais

Ataques cibernéticos não respeitam fronteiras geográficas, fusos horários nem jurisdições legais. Um ataque DDoS pode partir de dispositivos comprometidos em dezenas de países, orquestrados por grupos que se escondem atrás de camadas de anonimato.

Nesse cenário, respostas estritamente nacionais tendem a ser limitadas. A cooperação internacional é essencial para:
– Compartilhar informações sobre novas ameaças e tendências de ataque
– Trocar dados de incidentes em tempo quase real
– Harmonizar práticas de resposta a incidentes
– Desenvolver padrões técnicos comuns
– Criar massa crítica de conhecimento em áreas emergentes, como IA aplicada à segurança

A parceria entre Brasil, Alemanha e Nova Zelândia ilustra esse movimento global de convergência entre centros de pesquisa, com a vantagem de combinar perspectivas de diferentes regiões do mundo, com realidades de infraestrutura, regulação e ameaças distintas.

Impacto prático esperado para governo e empresas

Embora seja um projeto de base científica, a rede de cooperação tem forte vocação prática. Entre os impactos esperados, destacam-se:
– Melhoria dos mecanismos de detecção precoce de ataques a órgãos públicos
– Ferramentas mais eficientes de mitigação de DDoS para provedores de internet e empresas
– Modelos de IA capazes de se adaptar a novas formas de ataque sem necessidade de reconfiguração manual constante
– Diretrizes técnicas que possam subsidiar políticas públicas de segurança digital
– Formação de profissionais qualificados para atuar em centros de operações de segurança (SOCs)

Para as empresas brasileiras, os avanços decorrentes dessa colaboração podem significar redução de tempo de indisponibilidade de serviços, menor risco de vazamentos de dados e mais confiança de clientes e parceiros. Para o governo, a capacidade de resistir a ataques coordenados em grande escala é um pilar fundamental de soberania e continuidade de serviços essenciais.

Convergência entre pesquisa, políticas públicas e regulação

O fortalecimento da posição do Brasil em cibersegurança também passa pela articulação entre pesquisa acadêmica, legislação e estratégias de governo. Normas como leis de proteção de dados e marcos legais de segurança digital ganham eficácia quando dialogam com o estado da arte da tecnologia e das ameaças.

Projetos como essa rede internacional podem fornecer evidências técnicas para a formulação de políticas públicas mais robustas, bem como orientar investimentos em infraestrutura crítica, centros de resposta a incidentes e programas de capacitação. A integração com instituições estrangeiras aumenta a capacidade de o país acompanhar boas práticas internacionais e adaptar essas referências à realidade brasileira.

Caminhos futuros: inovação contínua e formação de talentos

A continuidade dessa colaboração tende a abrir novas frentes de pesquisa, como:
– Uso de IA explicável para tornar decisões automatizadas em segurança mais transparentes
– Aplicação de técnicas de aprendizado federado para proteger dados sensíveis durante o treinamento de modelos
– Estudo de ataques que combinam DDoS com extorsão, ransomware ou manipulação de dados
– Desenvolvimento de arquiteturas de rede mais resilientes, pensadas desde o projeto para resistir a falhas e ataques

Outro eixo estratégico é a formação de talentos. Programas de intercâmbio, coorientação de alunos e participação conjunta em projetos internacionais contribuem para criar uma nova geração de profissionais brasileiros com visão global, domínio de tecnologias avançadas e capacidade de atuar em ambientes complexos de cibersegurança.

Um passo decisivo para o protagonismo brasileiro na segurança digital

Ao articular universidades de referência no Brasil, Alemanha e Nova Zelândia, a rede de colaboração em cibersegurança vai além da simples troca de experiências. Ela estabelece as bases para que o Brasil deixe de ser apenas um alvo em um cenário de ameaças globais e passe a ocupar um papel ativo na produção de conhecimento, tecnologias e estratégias de defesa.

Em um contexto em que ataques se multiplicam, riscos crescem e a dependência de infraestruturas digitais só aumenta, iniciativas científicas estruturadas, de longo prazo e com foco em inovação deixam de ser opcionais. Tornam-se um dos principais pilares da resiliência de um país – tanto para proteger serviços públicos essenciais quanto para garantir a competitividade e a segurança dos negócios em um mundo cada vez mais conectado.