Cibersegurança: 95% das equipes sofrem com falta de competências técnicas e de inglês
Uma nova fotografia do mercado global de cibersegurança revela um cenário preocupante: praticamente todas as equipes da área convivem com algum tipo de lacuna de habilidades. O Cybersecurity Workforce Study 2025, conduzido pela ISC2 com 16.029 profissionais e gestores, aponta que 95% dos times de segurança da informação identificam ao menos uma deficiência relevante em competências técnicas ou comportamentais. Para 59% dos entrevistados, essas lacunas são consideradas críticas ou altamente significativas, e 88% já perceberam impactos concretos no dia a dia das operações.
Entre as habilidades mais escassas, a inteligência artificial desponta na liderança: 41% dos participantes citam competências ligadas a IA como uma das principais ausências em suas equipes. Logo em seguida aparece a segurança em nuvem, mencionada por 36% dos profissionais. O resultado reflete a rápida migração de sistemas para ambientes cloud, o avanço de modelos de IA generativa e a necessidade de monitorar, configurar e proteger infraestruturas que se tornaram, ao mesmo tempo, mais distribuídas e mais complexas.
Essa transformação tecnológica ocorre em escala global e em ritmo acelerado. Novos alertas de fabricantes, publicações de vulnerabilidades críticas, orientações sobre ameaças emergentes e atualizações de documentação técnica são, em sua maioria, difundidos primeiro em inglês. Em meio a um incidente de segurança, a incapacidade de interpretar rapidamente uma recomendação, abrir um chamado com um fornecedor estrangeiro ou relatar adequadamente o ocorrido a uma equipe internacional pode atrasar decisões em momentos em que cada minuto representa risco financeiro, regulatório e reputacional.
Para Reginaldo Kaeneêne, CEO e fundador da KNN Idiomas, o domínio do inglês não pode ser visto como um conhecimento genérico e desconectado da realidade de trabalho. Ele destaca que o idioma precisa ser incorporado às tarefas concretas do especialista em segurança: ler um aviso sobre uma vulnerabilidade recém-descoberta, interagir com o suporte técnico de um fabricante estrangeiro, detalhar um ataque para uma equipe global ou participar de uma reunião emergencial durante uma crise. Na avaliação de Reginaldo, falar inglês amplia o acesso a informações atualizadas, encurta o caminho entre o problema e a solução e dá mais autonomia para o profissional tomar decisões sob pressão.
No Brasil, a formação de especialistas em cibersegurança foi incorporada como um dos eixos da Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber). O plano prevê ações de educação, capacitação, pesquisa, proteção de serviços essenciais e estímulo à cooperação internacional. Em julho de 2026, o Comitê Nacional de Cibersegurança apresentou o modelo Cimbra, criado para avaliar o grau de maturidade de empresas, órgãos públicos e do próprio país em relação à proteção digital. Nesse ambiente, termos como threat intelligence, incident response, zero trust, data breach e access control já fazem parte do vocabulário cotidiano de analistas, gestores e consultores.
Reginaldo ressalta que memorizar apenas expressões técnicas em inglês não resolve o problema. Em segurança da informação, é preciso transformar vocabulário em capacidade real de comunicação. Em situações de crise, o profissional precisa ser capaz de relatar um incidente com clareza, explicar uma vulnerabilidade a diferentes perfis de público, solicitar esclarecimentos objetivos a um fornecedor e apresentar medidas de contenção e mitigação de forma estruturada. Segundo ele, um curso de inglês eficiente para essa área deve simular esse tipo de interação, aproximando o aprendizado da rotina profissional.
A KNN Idiomas utiliza justamente essa abordagem. Fundada em 2012 e sediada em Santa Catarina, a rede de franquias especializou-se no ensino de idiomas para falantes de português, com foco em inglês, espanhol, francês, alemão e italiano. A metodologia prioriza a conversação desde as primeiras aulas, em turmas reduzidas, com material didático exclusivo e atualizado periodicamente. A escola oferece modalidades presenciais e digitais, por meio do KNN At Home, mantendo a ênfase na aprendizagem prática e na aplicação imediata do conteúdo no dia a dia de trabalho e estudo.
Além do ensino do idioma em si, a combinação entre cibersegurança e inglês técnico cria uma vantagem competitiva para o profissional brasileiro. Muitas certificações reconhecidas internacionalmente, guias de melhores práticas, relatórios de incidentes globais e publicações acadêmicas na área ainda não têm versões em português. Quem não domina o inglês depende de traduções parciais, resumos ou repasses informais de informação, o que aumenta o risco de interpretações equivocadas e decisões baseadas em dados incompletos.
Outro ponto crítico é a integração entre equipes globais. À medida que empresas multinacionais ampliam seus centros de serviços compartilhados e seus Security Operations Centers (SOCs) distribuem-se por diferentes países, torna-se comum a necessidade de trabalhar em regime de 24×7 com times de fusos horários distintos. Nessas estruturas, reuniões de alinhamento, war rooms durante incidentes, apresentações de indicadores e relatórios executivos costumam ocorrer em inglês. Profissionais que não conseguem se expressar com segurança acabam limitados a funções mais operacionais, com menos exposição estratégica e menor possibilidade de crescimento.
As lacunas não se restringem às empresas de grande porte. Pequenas e médias organizações, que vêm acelerando sua transformação digital e migrando para soluções em nuvem, também enfrentam ataques, sejam eles direcionados ou oportunistas. No entanto, muitos desses negócios ainda enxergam segurança como um custo, não como investimento. Sem profissionais com formação em cibersegurança e capacidade de interpretar recomendações técnicas internacionais, essas empresas tornam-se alvos fáceis, sobretudo em setores como varejo, serviços, educação e saúde.
A carência de habilidades em inteligência artificial adiciona uma camada extra de complexidade. De um lado, organizações precisam aprender a usar IA para fortalecer sua defesa – automatizando análises de logs, detectando anomalias, correlacionando eventos e priorizando alertas. De outro, criminosos digitais também utilizam IA para criar ataques mais sofisticados, personalizar golpes de engenharia social e explorar falhas de forma automatizada. Profissionais de segurança que não acompanham esse movimento correm o risco de ficar em desvantagem constante, reagindo apenas aos incidentes em vez de atuar de forma proativa.
A segurança em nuvem, segundo grande foco de escassez indicado pelo estudo, exige conhecimentos que extrapolam o modelo tradicional de infraestrutura. Não basta mais saber configurar um firewall ou um antivírus. É necessário compreender arquiteturas de múltiplas nuvens, responsabilidades compartilhadas entre provedor e cliente, políticas de identidade e acesso, criptografia, segmentação e monitoramento contínuo. Cada serviço cloud possui sua própria terminologia e documentação, quase sempre centrada no inglês, o que reforça a importância do idioma como parte da formação técnica.
Nesse cenário, a capacitação torna-se uma estratégia essencial para reduzir riscos e consolidar uma cultura de segurança. Organizações que investem em programas estruturados de treinamento, trilhas de desenvolvimento de carreira, incentivos a certificações e cursos de idiomas tendem a ter equipes mais preparadas para lidar com ameaças complexas. Já do ponto de vista individual, profissionais que buscam atualizar-se em cibersegurança, ao mesmo tempo em que aprimoram o inglês, ampliam significativamente suas oportunidades de atuação, tanto no mercado nacional quanto em posições internacionais e de trabalho remoto para empresas de outros países.
A convergência entre maturidade digital, políticas públicas de cibersegurança e educação é um caminho inevitável. Países que desejam proteger infraestruturas críticas, serviços essenciais e dados sensíveis precisam formar especialistas em quantidade e qualidade suficientes. Isso passa por currículos acadêmicos atualizados, parcerias com o setor privado, estímulo à pesquisa, incentivo à participação em eventos técnicos globais e oferta de ensino de idiomas alinhado às necessidades reais das profissões digitais. No caso brasileiro, iniciativas como a E-Ciber e o modelo Cimbra são passos importantes, mas sua eficácia depende, em grande medida, de uma força de trabalho capaz de operar em um ecossistema altamente conectado e majoritariamente anglófono.
Em última análise, a estatística de que 95% das equipes de cibersegurança convivem com algum tipo de lacuna de habilidades não é apenas um dado de pesquisa: ela funciona como um alerta estratégico. Empresas, governos e profissionais precisam enxergar o desenvolvimento de competências – técnicas, comportamentais e linguísticas – como parte integrante da gestão de risco. Ignorar essas deficiências significa aceitar que ataques serão mais frequentes, respostas serão mais lentas e as consequências, potencialmente mais graves. Já investir em formação contínua e no domínio do inglês, especialmente aplicado à segurança da informação, é transformar um ponto fraco em vantagem competitiva em um dos campos mais críticos da economia digital.
