Crimes digitais avançam na indústria paulista e elevam a cibersegurança à agenda empresarial
A expansão da tecnologia na indústria trouxe ganhos de produtividade, integração entre empresas e novas oportunidades de negócio. Ao mesmo tempo, ampliou os pontos de entrada para fraudes e ataques. Nesse cenário, a segurança digital deixou de ser uma preocupação exclusiva das equipes de TI e passou a integrar a gestão de riscos e a continuidade das operações.
A Pesquisa de Vitimização da Indústria, realizada pela Fiesp, acompanha a ocorrência de crimes contra empresas do estado de São Paulo. Na edição de 2024-2025, que ouviu 295 companhias, 40% dos participantes disseram ter sido vítimas de algum tipo de crime nos 12 meses anteriores. Entre os delitos mencionados, 16,6% foram praticados por meios digitais.
O percentual corresponde a quase uma em cada seis empresas participantes. Os relatos incluem estelionato cometido pela internet, telefone ou outros equipamentos eletrônicos, além de golpes, sequestro de dados e fraudes relacionadas a pagamentos. O resultado se refere ao grupo pesquisado e não deve ser interpretado como uma estimativa para todas as indústrias paulistas. Ainda assim, evidencia que as ameaças digitais já fazem parte da rotina empresarial.
O risco é especialmente complexo no setor industrial, onde sistemas corporativos convivem com redes de fornecedores, acessos remotos, equipamentos conectados e tecnologias que controlam processos de produção. Esses ambientes nem sempre seguem o mesmo ritmo de atualização: uma ferramenta administrativa pode receber correções frequentes, enquanto determinados sistemas operacionais da fábrica precisam de planejamento cuidadoso para evitar interrupções.
Um ataque pode começar com uma mensagem fraudulenta e terminar em uma transferência financeira indevida. Também pode envolver o comprometimento de uma conta de fornecedor, o acesso a arquivos internos ou a invasão de sistemas essenciais à produção. Por isso, o impacto vai muito além de um computador infectado: pode incluir paralisação de linhas, perda de dados, exposição de propriedade intelectual e danos à confiança de clientes e parceiros.
A prevenção começa pelo mapeamento do que mantém a empresa funcionando. É importante identificar sistemas e processos críticos, saber quais pessoas têm acesso a eles e compreender a dependência de fornecedores e prestadores de serviço. Com esse panorama, a organização consegue priorizar recursos e definir quais operações precisam ser recuperadas primeiro em caso de incidente.
Entre os controles técnicos recomendados estão a autenticação multifator, a proteção de computadores e servidores, a aplicação de atualizações de segurança, a segmentação das redes e a limitação de privilégios. Os backups também são essenciais, mas precisam ser testados: uma cópia de segurança que não pode ser restaurada a tempo talvez não impeça uma interrupção prolongada.
As barreiras tecnológicas, porém, não resolvem todos os problemas. Golpes podem explorar a pressa e a confiança dos funcionários para alterar dados bancários de fornecedores, aprovar pagamentos ou obter credenciais. Confirmações por um canal independente, separação entre as etapas de solicitação e aprovação e limites claros para transações ajudam a reduzir esse tipo de risco.
A capacitação dos colaboradores é outra frente importante. Treinamentos objetivos podem ensinar a reconhecer mensagens suspeitas, conferir pedidos urgentes e comunicar rapidamente qualquer comportamento incomum. A orientação deve alcançar não apenas a equipe de tecnologia, mas também áreas como financeiro, compras, recursos humanos, logística e atendimento, que lidam com dados e operações sensíveis.
Empresas pequenas e médias também precisam se preparar, mesmo quando não dispõem de equipes especializadas ou de um centro próprio de monitoramento. Nesses casos, vale começar por medidas de maior impacto: proteger contas de acesso, manter cópias de segurança, revisar permissões, atualizar sistemas e estabelecer procedimentos simples para pagamentos e resposta a incidentes. A contratação de serviços externos pode complementar a estrutura interna, desde que responsabilidades e níveis de atendimento estejam definidos.
Um plano de resposta ajuda a evitar improvisos quando um ataque acontece. Ele deve indicar quem toma decisões, como isolar equipamentos afetados, quais contatos precisam ser acionados e de que forma a empresa mantém as atividades prioritárias. Simulações periódicas permitem encontrar falhas no plano antes de uma emergência real e esclarecer a função de cada área.
A relação com fornecedores também merece atenção. Parceiros que acessam redes, dados ou sistemas da indústria podem representar um caminho indireto até a operação. Por isso, é prudente avaliar quais informações compartilham, quais permissões recebem e como comunicariam um incidente. O acesso deve ser limitado ao necessário e revisto quando contratos ou funções mudarem.
Para a liderança, os números da pesquisa reforçam a necessidade de tratar a cibersegurança como parte da gestão empresarial. Mais do que contar ferramentas instaladas, é preciso avaliar quais cenários ameaçam a produção, quanto tempo a organização consegue operar sem determinados sistemas e quais medidas diminuem de forma concreta a possibilidade de prejuízo.
A criminalidade digital contra empresas não se limita ao ransomware ou a ataques tecnicamente sofisticados. Fraudes de identidade, golpes de pagamento e manipulações de processos comerciais também podem causar perdas relevantes. Na indústria paulista, proteger o negócio exige combinar tecnologia, procedimentos bem definidos, preparação das equipes e capacidade de retomar as operações com rapidez.