Pequenas empresas estão na mira dos golpes e contam com menos proteção
A digitalização ampliou as oportunidades para os pequenos negócios, mas também abriu novas frentes de risco. Pagamentos, dados de clientes, comunicação com fornecedores e atividades do dia a dia dependem cada vez mais de sistemas conectados. Mesmo assim, muitas empresas de menor porte ainda não têm processos, equipes ou recursos suficientes para prevenir ataques e responder a incidentes.
Uma pesquisa do Sebrae em parceria com a FGV IBRE, que ouviu 4.466 empreendedores, mostra o tamanho do problema: nos 12 meses anteriores ao levantamento, 44% dos pequenos negócios foram alvo de golpes digitais ou por telefone. O índice se aproxima do registrado entre médias e grandes empresas, de 47%. A diferença aparece no impacto: entre as pequenas que sofreram uma fraude, 31% tiveram prejuízo financeiro, ante 22% das empresas maiores.
O contraste também está no nível de preparação. Entre médias e grandes companhias, 72% afirmam contar com medidas estruturadas de proteção digital e iniciativas para orientar funcionários contra fraudes. Nos pequenos negócios, esse percentual cai para 17%. A falta de procedimentos claros pode tornar mais difícil identificar uma tentativa de golpe, limitar danos e retomar as operações.
Entre as fraudes que mais preocupam os empreendedores estão os boletos falsos, citados por 38% dos entrevistados. Golpes por telefone, nos quais criminosos se passam por funcionários de uma central bancária, aparecem em 31% das respostas. As fraudes via Pix são mencionadas por 30%. Mensagens urgentes, pedidos de confirmação de dados e alterações inesperadas em instruções de pagamento merecem atenção especial, sobretudo quando não há uma rotina de verificação.
A exposição não se limita ao dinheiro perdido em uma transação. Uma invasão pode comprometer informações de clientes, interromper vendas, bloquear sistemas e prejudicar a reputação da empresa. Em negócios com equipes enxutas, até mesmo algumas horas sem acesso a ferramentas essenciais podem afetar entregas, atendimento e fluxo de caixa.
Os dados da IBM ajudam a dimensionar o custo dos incidentes. No Brasil, uma violação de dados teve custo médio de R$ 7,19 milhões em 2025, alta de 6,5% em relação ao ano anterior. No mesmo período, a média mundial caiu para US$ 4,44 milhões. O phishing – fraude que usa mensagens enganosas para induzir a vítima a clicar em um link, abrir um arquivo ou revelar informações – foi a principal porta de entrada, presente em 18% dos casos.
O tipo de ocorrência mais caro, porém, foi o comprometimento de terceiros e da cadeia de suprimentos. Esse grupo respondeu por 15% dos incidentes analisados e gerou um custo médio de R$ 8,98 milhões por caso. O dado reforça que a segurança de uma empresa também depende dos prestadores que acessam seus sistemas ou processam informações em seu nome. Para provedores de internet e tecnologia, isso representa tanto uma responsabilidade quanto uma oportunidade de ampliar o apoio oferecido aos clientes.
Investir em proteção, contudo, pesa proporcionalmente mais no orçamento das empresas menores. Um levantamento da IANS Research e da Artico Search aponta que os negócios de menor porte analisados destinam mais de 2% da receita à segurança. Nas companhias maiores, a proporção fica próxima de 0,6%. Uma das razões é que ferramentas, licenças e serviços básicos podem ter custos semelhantes para equipes de dez ou cem pessoas, tornando a conta mais difícil para quem fatura menos.
No Brasil, estudo da Logicalis indica que metade das empresas conta com um centro de operações de segurança, ou SOC, e 29% têm um diretor de segurança da informação, conhecido como CISO. Nas organizações com faturamento superior a R$ 5 bilhões, esses índices chegam a 87% e 67%, respectivamente. Para pequenos negócios, manter estruturas próprias desse tipo costuma ser inviável: além da tecnologia, são necessários profissionais especializados e atualização constante.
Há, ainda assim, sinais de avanço. O Barômetro da Segurança Digital 2025, da Mastercard, ouviu 332 gestores de tecnologia e constatou que a parcela de pequenas e médias empresas com uma área dedicada à segurança subiu de 23%, em 2022, para 66%, em 2025. A Brasscom, por sua vez, projeta R$ 104,6 bilhões em investimentos em segurança digital no país entre 2025 e 2028 – um aumento de 43,8% em comparação com o ciclo anterior.
A questão central é fazer com que esses recursos alcancem empresas que não conseguem montar uma operação completa por conta própria. Uma alternativa é contratar serviços especializados compartilhados, nos quais equipes e ferramentas atendem a diferentes clientes. Esse modelo pode reduzir custos e dar acesso a competências que seriam difíceis de manter internamente.
Também ganha espaço a oferta de segurança por meio de parceiros já presentes no cotidiano das empresas, como provedores de internet e serviços de tecnologia. A Farol Soluções, por exemplo, lançou o AutoPilot, modelo white-label em que o parceiro comercializa a oferta com sua própria marca, enquanto a empresa sustenta a estrutura especializada. O provedor mantém o relacionamento com o cliente e a condução comercial; a Farol apoia a formação do portfólio, a pré-venda, a implementação e a operação.
As soluções podem ser adaptadas às necessidades de cada carteira de clientes. Entre as possibilidades estão avaliações de maturidade em segurança, gestão de vulnerabilidades, testes de invasão, proteção de equipamentos e monitoramento contínuo, incluindo detecção e resposta a incidentes. A empresa também oferece um portal com treinamentos, materiais de apoio comercial e acompanhamento de propostas e projetos, além de contar com um Centro de Excelência em Cibersegurança.
Para os pequenos negócios, a proteção não precisa começar com a criação de um departamento próprio. Medidas simples já ajudam a reduzir riscos: ativar autenticação em duas etapas, manter sistemas atualizados, fazer cópias de segurança e restringir o acesso a dados e ferramentas conforme a função de cada funcionário. É igualmente importante orientar a equipe a confirmar pedidos de pagamento por um canal independente antes de realizar transferências.
Um plano básico de resposta também pode fazer diferença. A empresa deve saber quem contatar diante de uma suspeita, como suspender acessos comprometidos e onde encontrar cópias dos arquivos essenciais. Testar periodicamente a restauração dos backups evita descobrir, apenas durante uma crise, que os dados não podem ser recuperados.
A proximidade com clientes e o conhecimento de seus ambientes tecnológicos podem ajudar os provedores a ampliar a proteção oferecida. Como observa Marcos Rodrigo Silva, diretor da Farol Soluções, muitos deles já têm a confiança dos clientes e entendem a infraestrutura utilizada. O desafio é transformar essa relação em serviços consistentes de cibersegurança sem exigir que cada parceiro construa, do zero, toda a estrutura técnica necessária.
Para qualquer empresa, o ponto de partida é reconhecer que o risco não depende do tamanho do negócio. Uma política clara de pagamentos, capacitação básica dos funcionários, cópias de segurança e apoio técnico adequado tornam mais difícil a ação de criminosos e ajudam a limitar os prejuízos quando algo dá errado.
