Ataque cibernético afeta carrefour e compromete refrigeração de supermercados na frança

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Carrefour é afetado por ataque cibernético que compromete refrigeração de supermercados na França

Um ataque cibernético desativou sistemas de refrigeração em centenas de supermercados franceses e levou redes varejistas a descartar alimentos que perderam as condições adequadas de conservação. Entre as empresas atingidas está o Carrefour, que informou que 80 de suas cerca de 6 mil lojas foram afetadas.

O problema foi percebido pelos funcionários na manhã de segunda-feira, 12 de outubro. Ao verificar os equipamentos, equipes encontraram produtos frescos e congelados descongelados ou aquecidos. Em alguns casos, a temperatura interna dos sistemas teria chegado a 50 °C.

Além do Carrefour, foram atingidas redes como Coopérative U, Intermarché, Leclerc e Monoprix. A holding Les Mousquetaires, responsável também pela rede Netto, relatou que aproximadamente 150 lojas do grupo tiveram problemas. Já a Monoprix estimou que o incidente alcançou 5% de suas mais de 400 unidades.

Segundo as informações divulgadas pelas empresas, os invasores acionaram remotamente o modo de degelo forçado de milhares de unidades. O comando, utilizado normalmente em operações de manutenção, teria sido empregado para elevar a temperatura dos equipamentos e prejudicar a conservação dos alimentos.

Dominique Schelcher, presidente da Coopérative U, afirmou que as equipes trabalhavam com técnicos para restabelecer os sistemas. Ele classificou a ação como inédita e inaceitável, ressaltando que atingir estruturas essenciais para conservar alimentos e abastecer a população representa uma ameaça grave.

Equipamentos antigos estão no centro da investigação

Os sistemas de controle de refrigeração da fabricante dinamarquesa Danfoss aparecem entre os principais alvos. A empresa declarou que a maioria dos equipamentos afetados era de modelos antigos, que já não recebe atualizações de software ou de segurança. Entre os aparelhos mencionados estão os modelos AK-SM800 e AK-SC355.

A Danfoss informou que há tempos recomenda a substituição desses produtos por soluções mais recentes, mas não divulgou quantos equipamentos foram comprometidos. Em um dos casos citados, o AK-SM800 operava com firmware desatualizado.

A Procuradoria de Paris abriu uma investigação sobre o ataque em larga escala e sobre incêndios relatados em alguns locais. A agência francesa de cibersegurança, ANSSI, também foi mobilizada. O gabinete do primeiro-ministro Sébastien Lecornu informou que foi identificada uma vulnerabilidade em um software fornecido por uma empresa dinamarquesa.

Para o especialista em testes de segurança Marcos Maia, a combinação de sistemas antigos, acesso remoto e falta de segmentação adequada representa um risco conhecido em ambientes de tecnologia operacional e dispositivos conectados. Embora ainda não tenham sido divulgidos detalhes técnicos conclusivos, ele avalia que interfaces de administração expostas, credenciais frágeis, falhas sem correção ou acessos de terceiros podem estar entre as hipóteses investigadas.

O alcance simultâneo em diferentes redes também levanta a possibilidade de uma varredura em massa ou da exploração de algum componente compartilhado. Até que a apuração esclareça a origem do acesso, não é possível determinar qual desses caminhos foi utilizado pelos responsáveis.

O impacto vai além dos equipamentos

Quando a refrigeração deixa de funcionar, o prejuízo não se limita à interrupção de uma máquina. Alimentos que passam tempo demais fora da faixa segura de temperatura podem se tornar impróprios para consumo. Por isso, os supermercados precisam avaliar os produtos e descartar aqueles cuja conservação não possa ser garantida.

A ocorrência também pode afetar o abastecimento. Mesmo que a maioria das lojas permaneça aberta, a perda de mercadorias e a necessidade de inspecionar os equipamentos podem reduzir a disponibilidade de determinados itens. A reposição depende da capacidade dos fornecedores e da normalização dos sistemas.

O caso evidencia que dispositivos de refrigeração são parte da infraestrutura essencial de um supermercado. Embora não sejam computadores usados diretamente por funcionários, esses controladores podem estar conectados a redes digitais e, em alguns casos, ser administrados à distância. Se não forem protegidos, uma falha de segurança pode se transformar em um problema operacional e alimentar.

Uma das medidas prioritárias para empresas do setor é identificar equipamentos antigos que já não recebem correções. A organização precisa manter um inventário atualizado dos dispositivos conectados, registrar seus responsáveis e definir planos para substituir modelos que não possam mais ser protegidos adequadamente.

Também é importante limitar o acesso remoto. Conexões de manutenção devem ser autorizadas, monitoradas e protegidas por autenticação robusta. O acesso concedido a fornecedores e prestadores precisa ser restrito ao necessário e encerrado quando deixa de ser utilizado.

A separação entre redes de escritório e sistemas operacionais pode ajudar a conter incidentes. Com a segmentação, um invasor que consiga entrar em uma área da infraestrutura encontra mais barreiras para alcançar controladores de refrigeração, sensores e outros equipamentos críticos.

Um precedente conhecido em 2014

O episódio francês remete ao ataque contra a rede americana Target, em 2014. Naquela ocasião, criminosos roubaram dados de cerca de 40 milhões de cartões de crédito. A invasão teria começado por meio da rede de um prestador terceirizado de serviços de refrigeração e climatização, a Fazio Mechanical Services.

A empresa confirmou ter sido alvo de uma operação cibernética sofisticada. O caso demonstrou como fornecedores com acesso à infraestrutura de uma organização podem se tornar um ponto de entrada para ataques mais amplos. Mais de uma década depois, a dependência de sistemas conectados e a permanência de equipamentos desatualizados continuam sendo desafios para o varejo.

A segurança alimentar, portanto, também depende da proteção digital. Atualizações, controle de acesso, monitoramento contínuo e planos de resposta a incidentes ajudam a reduzir riscos – especialmente em sistemas que, embora discretos, mantêm produtos seguros e operações comerciais em funcionamento.