Criptografia pós-quântica: sem governança, a migração pode ampliar o risco
A migração para a criptografia pós-quântica já entrou na agenda das organizações. No entanto, substituir algoritmos sem saber onde eles são usados, quais sistemas dependem deles e quem administra suas chaves pode gerar novos problemas: interrupções, falhas de segurança e dificuldades para cumprir requisitos regulatórios.
A discussão costuma se concentrar na evolução dos computadores quânticos e na necessidade de trocar mecanismos como RSA e criptografia de curva elíptica por alternativas resistentes a esse tipo de processamento. Essa preocupação é legítima, mas não representa todo o desafio. Para muitas empresas, a primeira dificuldade é mais imediata: descobrir como a criptografia está distribuída pela infraestrutura atual.
A recomendação de Rafael Silva, diretor técnico da Futurex, resume essa etapa: antes de migrar, é preciso localizar. Chaves, certificados, bibliotecas e protocolos podem estar presentes em aplicações antigas, APIs, bancos de dados, dispositivos, redes industriais, serviços em nuvem, contêineres e soluções de terceiros. Sem uma visão abrangente, fica difícil definir o que mudar, em qual ordem e com que impacto.
Em agosto de 2024, o NIST finalizou os padrões FIPS 203, FIPS 204 e FIPS 205, que estabelecem mecanismos pós-quânticos para encapsulamento de chaves e assinaturas digitais. Em 2026, a orientação do órgão continua sendo que as organizações iniciem a transição. O projeto Migration to Post-Quantum Cryptography também contempla duas frentes importantes: visibilidade e gestão de riscos criptográficos, além de interoperabilidade e avaliação de desempenho.
Com isso, a pergunta deixou de ser apenas quando um computador quântico poderá comprometer a criptografia de chave pública em larga escala. Também é preciso saber quanto tempo a organização levará para identificar os sistemas afetados e quanto esforço será necessário para atualizá-los sem interromper operações essenciais.
O estudo *Future encrypted: Why post-quantum cryptography tops the new cybersecurity agenda*, do Capgemini Research Institute, indica que 70% das organizações pesquisadas já avaliam ou executam iniciativas de segurança pós-quântica. Apenas 15%, porém, alcançaram o nível de maturidade mais elevado descrito no relatório, o grupo chamado Quantum-Safe Champions. Os números mostram que começar a investir não significa, necessariamente, estar preparado para conduzir uma migração abrangente.
Inventário criptográfico: a base do planejamento
Um inventário eficaz não deve se limitar a registrar os algoritmos existentes. É necessário mapear onde cada mecanismo é utilizado, quais chaves e certificados estão ativos, quem responde por eles, quais aplicações e integrações dependem desses elementos, quando os certificados expiram e que dados estão protegidos.
Esse levantamento também deve considerar protocolos como TLS, SSH e VPN, além de assinatura de código, autenticação baseada em certificados e componentes de fornecedores. Algumas dependências ficam incorporadas em produtos ou bibliotecas e não são facilmente visíveis para as equipes internas. Por isso, a colaboração entre segurança, infraestrutura, desenvolvimento, operações e áreas de negócio é fundamental.
O NIST ressalta que não é possível priorizar a substituição de mecanismos que a organização ainda não identificou. A mudança de um certificado, de uma biblioteca ou de um protocolo pode afetar autenticações, conexões entre sistemas, dispositivos em campo e softwares que permanecerão em uso por muitos anos. Um inventário atualizado ajuda a antecipar esses efeitos antes que a alteração chegue à produção.
O risco de coletar dados hoje para decifrá-los amanhã
A estratégia conhecida como *Harvest Now, Decrypt Later* – coletar agora e decifrar depois – torna a preparação mais urgente. Um atacante pode armazenar informações criptografadas sem ter, no presente, recursos para acessá-las. Caso a capacidade de quebrar os mecanismos atuais se torne viável no futuro, dados capturados hoje poderão perder sua proteção.
A ameaça é mais relevante para informações que precisam permanecer confidenciais por longos períodos, como registros pessoais, dados financeiros, propriedade intelectual e informações estratégicas. A avaliação de risco, portanto, deve considerar não apenas a sensibilidade do conteúdo, mas também quanto tempo ele precisa continuar protegido.
Coexistência de algoritmos exige controle
A transição não ocorrerá de uma só vez. Durante um período, sistemas e parceiros poderão utilizar combinações de mecanismos tradicionais e pós-quânticos. Essa convivência pode aumentar a complexidade: há mais configurações para administrar, maior necessidade de testes e mais possibilidades de incompatibilidade entre plataformas.
Uma alteração bem-sucedida em um sistema isolado não garante que o mesmo mecanismo funcionará em toda a cadeia de serviços. Por isso, testes de interoperabilidade e desempenho são essenciais. Eles ajudam a verificar, por exemplo, se as novas opções afetam a velocidade das conexões, o consumo de recursos ou a comunicação com aplicações e equipamentos antigos.
HSM não substitui governança
Módulos de segurança de hardware (HSMs) podem contribuir para proteger chaves e executar operações criptográficas em ambientes controlados. Ainda assim, a aquisição ou atualização desses dispositivos não resolve, sozinha, os problemas de visibilidade, responsabilidade e priorização.
Uma estratégia completa precisa definir políticas para geração, armazenamento, uso, rotação e descarte de chaves, além de estabelecer responsáveis e procedimentos de resposta a falhas. Também deve integrar a gestão criptográfica aos processos de mudança e aquisição de tecnologia. Sem essas regras, a organização pode trocar componentes sem controlar de forma consistente os riscos associados.
Crypto-agility como capacidade permanente
A *crypto-agility* é a capacidade de substituir algoritmos, chaves e protocolos com agilidade e segurança quando necessário. Não se trata apenas de realizar uma atualização pontual, mas de projetar sistemas que permitam mudanças futuras sem reconstruir toda a arquitetura.
Para desenvolver essa capacidade, as empresas podem evitar dependências rígidas de um único algoritmo, separar configurações criptográficas do código sempre que possível e manter processos de atualização testados. A documentação também deve ser tratada como parte da segurança: sem registros confiáveis, cada nova mudança tende a exigir descobertas demoradas e aumentar a chance de erro.
O que fazer agora
O primeiro passo é estabelecer um programa de governança criptográfica com participação das equipes técnicas e das áreas responsáveis pelos dados e pelos serviços de negócio. Em seguida, a organização deve construir e manter o inventário, identificar informações que precisam de proteção por mais tempo e avaliar quais ativos apresentam maior exposição.
Com base nesse diagnóstico, é possível criar uma sequência de migração, testar mudanças em ambientes controlados e planejar a atualização de sistemas legados e dependências de fornecedores. Também é recomendável definir critérios para medir o avanço, como a proporção de ativos identificados, a quantidade de dependências sem responsável e o número de sistemas que já foram avaliados.
A migração pós-quântica não deve ser conduzida como uma simples troca de algoritmos. Inventário, governança, testes e crypto-agility são elementos que permitem reduzir incertezas e evitar que a solução crie novos pontos de falha. Quanto antes as organizações entenderem onde a criptografia sustenta suas operações, maior será a capacidade de planejar a transição sem comprometer a disponibilidade, a conformidade e a proteção dos dados.
