Conselhos se preparam para choques na infraestrutura digital e reforçam a soberania tecnológica

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Conselhos se preparam para choques na infraestrutura digital

A dependência de serviços digitais críticos deixou de ser apenas uma questão técnica e passou a ocupar espaço permanente na agenda de conselhos administrativos e órgãos públicos. Tensões geopolíticas, restrições comerciais, controles de exportação, ataques cibernéticos e interrupções em serviços de nuvem estão levando as organizações a avaliar sua infraestrutura digital com a mesma atenção dedicada à energia, à logística e às cadeias de suprimentos físicas.

Essa é uma das principais conclusões do estudo “Digital Sovereignty: From Policy Ambition to Executive Imperative”, produzido pelo Capgemini Research Institute. A pesquisa ouviu 1.300 executivos de grandes organizações em 11 países e mostra que a soberania digital já é discutida pelos conselhos de 93% das empresas analisadas. Em 44% dos casos, o tema aparece entre as prioridades mais importantes da alta administração.

Segundo Nicolas Gaudilliere, executivo da Capgemini responsável pelo levantamento, os riscos que antes eram percebidos apenas de forma abstrata agora se tornaram concretos. Falhas em provedores de nuvem, sanções internacionais, indisponibilidade de componentes e incidentes de segurança demonstram que uma decisão tecnológica pode afetar diretamente a continuidade dos negócios.

A Capgemini é uma multinacional francesa fundada em 1967, com atuação em mais de 50 países e aproximadamente 420 mil colaboradores. A companhia presta serviços de consultoria, engenharia de software, transformação digital, gestão de infraestrutura de TI, computação em nuvem, dados e inteligência artificial.

Dependências digitais se acumulam

O estudo aponta que a migração acelerada para a nuvem e a adoção de ferramentas de inteligência artificial avançaram mais rapidamente do que os mecanismos de governança e os modelos de resiliência. Como consequência, muitas organizações passaram a depender de plataformas, dados, modelos algorítmicos e fornecedores que nem sempre conseguem substituir com rapidez.

O Índice de Soberania Digital da Capgemini, calculado a partir da análise de 866 organizações, identificou que 86% delas apresentam exposição significativa a riscos relacionados à soberania digital. Entre os fatores de preocupação estão a concentração em poucos provedores, a dificuldade de transferir dados e aplicações, a dependência de tecnologias estrangeiras e a falta de alternativas para componentes considerados críticos.

Outro problema é a pouca visibilidade sobre as camadas que compõem os ambientes digitais. Uma empresa pode contratar um serviço local, mas depender de sistemas operacionais, processadores, bibliotecas de software, data centers ou serviços de inteligência artificial controlados por companhias de outros países. Essa cadeia de dependências torna mais difícil avaliar os riscos reais.

Substituição é o ponto central

Para Charles-Pierre Astolfi, diretor de informações do Instituto Nacional de Informação Geográfica e Florestal da França, a soberania digital está relacionada principalmente à capacidade de substituição. Em outras palavras, uma organização precisa conseguir trocar uma tecnologia essencial caso o fornecedor deixe de operar, sofra sanções, aumente excessivamente os preços ou se torne indisponível.

A discussão, portanto, não se resume à nacionalidade do provedor. O aspecto decisivo é saber se a empresa possui alternativas viáveis e se consegue migrar seus sistemas sem interromper operações fundamentais. Um fornecedor estrangeiro pode não representar um risco imediato se houver portabilidade, contratos equilibrados e opções técnicas compatíveis. Da mesma forma, um fornecedor local pode gerar dependência excessiva caso não exista concorrência ou possibilidade real de substituição.

A aposta na interdependência resiliente

A soberania digital completa não é considerada um objetivo realista pela maioria das organizações. De acordo com a pesquisa, 59% dos executivos reconhecem que alcançar autossuficiência tecnológica total seria impraticável ou economicamente inviável.

Por isso, a estratégia mais adotada é a chamada interdependência resiliente. O conceito combina cooperação tecnológica com capacidade de controle e recuperação. Em vez de tentar desenvolver internamente todos os recursos, a organização identifica quais ativos precisam permanecer sob seu domínio, reduz concentrações perigosas e cria caminhos alternativos para manter a operação em caso de crise.

Dois terços dos executivos ouvidos definem soberania digital justamente como uma forma de interdependência resiliente. A prioridade é proteger dados proprietários, sistemas essenciais, modelos de inteligência artificial, credenciais, processos críticos e conhecimentos que não podem ficar totalmente subordinados a um único parceiro.

A resiliência operacional diante de instabilidades geopolíticas e interrupções é o principal motivo para investir no tema, citado por 80% dos participantes. A preocupação não está limitada a ataques hackers: mudanças regulatórias, conflitos internacionais, bloqueios comerciais e falhas técnicas também podem interromper serviços indispensáveis.

Como os conselhos podem agir

A primeira medida é mapear as dependências digitais de ponta a ponta. Isso inclui identificar provedores de nuvem, serviços de telecomunicações, plataformas de dados, fornecedores de software, componentes de hardware e empresas terceirizadas que participam de processos críticos.

Também é necessário classificar os ativos conforme seu impacto para o negócio. Nem todos os sistemas exigem o mesmo nível de controle. Um portal institucional, por exemplo, pode ter alternativas simples, enquanto uma plataforma bancária, industrial ou hospitalar demanda planos detalhados de continuidade e recuperação.

A diversificação de fornecedores é outra frente importante. Utilizar mais de uma nuvem, manter contratos com empresas alternativas e evitar formatos proprietários pode reduzir o risco de dependência. Entretanto, a multicloud não deve ser adotada apenas como tendência: ela exige equipes capacitadas, arquitetura compatível, custos controlados e testes regulares de migração.

A portabilidade dos dados precisa ser tratada como requisito contratual. As empresas devem definir prazos para exportação, formatos abertos, responsabilidades em caso de encerramento do contrato e acesso às informações necessárias para reconstruir aplicações em outro ambiente.

Inteligência artificial amplia os desafios

A expansão da inteligência artificial adiciona novas camadas de dependência. Organizações podem ficar vinculadas a modelos específicos, conjuntos de dados, chips especializados e serviços de processamento oferecidos por poucos fornecedores globais.

Para reduzir esse risco, os conselhos devem exigir inventários dos modelos utilizados, documentação sobre dados de treinamento, mecanismos de auditoria e planos para substituir ferramentas de IA. Também é recomendável evitar que decisões críticas dependam de um único sistema automatizado sem supervisão humana ou alternativa operacional.

A governança deve incluir ainda regras para atualização de modelos, proteção contra manipulação de dados, controle de acessos e monitoramento de resultados. Um modelo indisponível ou alterado sem transparência pode comprometer processos jurídicos, financeiros, industriais e de atendimento ao consumidor.

Resiliência exige testes, não apenas planos

Ter um plano de continuidade no papel não garante capacidade de resposta. As organizações precisam simular interrupções de nuvem, indisponibilidade de fornecedores, ataques de ransomware, perda de conectividade e bloqueios de acesso a dados.

Esses exercícios devem envolver tecnologia, segurança, jurídico, compras, comunicação e liderança executiva. O objetivo é verificar quanto tempo a empresa leva para detectar o problema, tomar decisões, acionar fornecedores alternativos e restabelecer os serviços prioritários.

Métricas como tempo de recuperação, perda aceitável de dados, concentração por fornecedor e percentual de sistemas com rota alternativa ajudam os conselhos a acompanhar a evolução da resiliência. Sem indicadores objetivos, a soberania digital corre o risco de permanecer apenas como uma declaração estratégica.

Uma responsabilidade de negócio

A pesquisa indica que o debate sobre infraestrutura digital está migrando dos departamentos de TI para o centro da estratégia corporativa. A segurança dos dados, a continuidade dos serviços e a capacidade de trocar fornecedores podem influenciar receitas, reputação, conformidade regulatória e valor de mercado.

Para Gaudilliere, o desafio não é perseguir uma autossuficiência digital impossível, mas definir com clareza onde o controle é indispensável. A partir dessa análise, cada organização deve equilibrar custo, inovação, flexibilidade e proteção.

Em um cenário de crises simultâneas e dependências tecnológicas cada vez maiores, a vantagem não estará necessariamente em controlar toda a infraestrutura. Ela estará na capacidade de compreender as dependências, reduzir pontos únicos de falha e continuar operando mesmo quando o ambiente externo mudar de forma abrupta.