Uso corporativo de IA cresceu 158% em um ano e amplia superfície de ataque digital
O mais recente Threat Landscape Report 2026 da Infoblox, com dados coletados entre junho de 2025 e junho de 2026, revela um cenário claro: o cibercrime entrou em uma fase de industrialização acelerada, fortemente apoiada em Inteligência Artificial e automação. Nesse mesmo período, o uso corporativo de aplicações de IA, medido por chamadas de DNS, disparou 158%, criando novas oportunidades de negócio, mas também expandindo de forma agressiva a superfície de ataque das empresas.
O levantamento mostra que o ecossistema de ameaças está crescendo em volume, sofisticação e profissionalização. O número de grupos de ransomware aumentou 67% em um ano, enquanto o total de clusters de ameaças mapeados pela equipe de inteligência da Infoblox subiu 97%. Esse movimento reflete tanto a entrada de novos atores maliciosos quanto a melhoria na visibilidade sobre campanhas emergentes, impulsionada por soluções de monitoramento avançado.
Um dos dados mais alarmantes diz respeito à infraestrutura de domínios. Entre mais de 120 milhões de domínios recém-registrados analisados, 22% foram classificados como maliciosos ou com características de alto risco. Em paralelo, 44% dos domínios associados a atividades de ameaça permaneceram ativos por apenas um dia, evidenciando o uso massivo de domínios descartáveis para dificultar o rastreamento e a reação das equipes de segurança.
Essa estratégia de “infraestrutura volátil” é típica de campanhas de phishing, fraudes online e distribuição de malware. Ao trocar rapidamente de domínios, os criminosos burlam listas de bloqueio tradicionais e ganham tempo para comprometer vítimas antes que as defesas sejam atualizadas. Em um contexto de adoção acelerada de IA nas empresas, o volume de tráfego de DNS cresce e, com ele, a dificuldade de distinguir o legítimo do malicioso em tempo hábil.
A Infoblox ressalta que o salto de 158% nas chamadas de DNS para aplicações de IA não é apenas indicador de modernização corporativa, mas também de risco. Ferramentas de IA generativa, APIs de modelos avançados, assistentes inteligentes e serviços de automação passaram a ser integrados em fluxos de trabalho, aplicações internas e produtos voltados ao cliente. Cada novo serviço conectado à internet representa um ponto potencial de exploração, seja por configurações equivocadas, autenticação fraca ou uso indevido de chaves de API.
O relatório também chama atenção para o fortalecimento de uma economia paralela de “crime-as-a-service”. Um dos exemplos citados é o Penguin, um marketplace que oferece infraestrutura pronta para esquemas de fraude, incluindo campanhas conhecidas como “pig butchering” – golpes de longa duração em que os criminosos criam vínculos com as vítimas, muitas vezes por meio de aplicativos de mensagens ou redes sociais, até convencê-las a investir em plataformas fraudulentas. Esse tipo de serviço reduz a barreira de entrada para novos criminosos, que não precisam dominar aspectos técnicos para operar grandes campanhas.
Outro caso destacado é o FaiKast, um cluster de atores que emprega deepfakes gerados por IA para atrair vítimas a supostas plataformas de investimento. Vídeos e áudios falsos convincente são usados para simular depoimentos, recomendações de especialistas ou até declarações de figuras públicas, ampliando a taxa de conversão dos golpes. A combinação de IA generativa, engenharia social e infraestrutura escalável permite que esse tipo de fraude seja automatizado e replicado em diversos idiomas e regiões.
Os ataques a dispositivos móveis também entram em uma nova fase. O relatório aponta campanhas de smishing (phishing por SMS) focadas em roubo de iPhones, com mensagens cuidadosamente elaboradas para parecer notificações de serviços legítimos, e operações de trojans bancários para Android capazes de capturar dados biométricos e códigos OTP (one-time password). Com a crescente dependência de autenticação em dois fatores via celular e aplicativos bancários, comprometer o smartphone de uma vítima se torna uma via direta para o acesso às suas contas financeiras e corporativas.
Na análise da Infoblox, os golpes em geral estão se sofisticando e se diversificando. Houve um aumento de 62% no número de domínios relacionados a fraudes, reforçando a percepção de que o “negócio da fraude digital” vive uma verdadeira pandemia. Em campanhas de phishing, 71% dos incidentes estudados envolviam URLs sem qualquer menção à marca-alvo no domínio. Em vez de depender de nomes parecidos, os atacantes passaram a apostar no visual: páginas com layout, logotipo, tipografia e fluxo de navegação praticamente idênticos aos dos sites originais.
Essa mudança de tática é um desafio direto às defesas baseadas apenas em verificação de domínio. Se o endereço não contém a marca e ainda assim o design é perfeito, a detecção automatizada e a capacidade do usuário comum de identificar o golpe ficam drasticamente reduzidas. É nesse espaço que a IA também entra em cena do lado dos defensores, com modelos capazes de analisar comportamentos, padrões de navegação e pequenas discrepâncias em interfaces que podem entregar a fraude.
O relatório também aponta o uso crescente de infraestrutura legítima para mascarar atividades maliciosas. Criminosos estão abusando de redes de proxy residenciais, de segmentos da infraestrutura de telecomunicações e até de partes do namespace .arpa para ocultar a origem do tráfego e burlar bloqueios baseados em IP ou geolocalização. Essa tendência reforça a ideia de que a linha entre tráfego legítimo e malicioso está cada vez mais tênue.
Frente a esse cenário, a Infoblox defende uma estratégia de defesa preemptiva, estruturada em quatro pilares principais: DNS preventivo, proteção de risco digital, gerenciamento da superfície de ataque externa e inventário contínuo de ativos e aplicações. Em outras palavras, não basta reagir a incidentes já em andamento; é preciso antecipar domínios e infraestruturas suspeitas, entender a exposição digital da organização e manter um mapa atualizado de tudo o que está conectado à rede corporativa.
Segundo a empresa, sua abordagem possibilitou identificar cerca de 90% dos domínios relacionados a ameaças antes de qualquer interação com as redes dos clientes, com lead time médio de 68 dias e uma taxa de falsos positivos de apenas 0,0002%. Esses números ilustram o potencial de uma inteligência de ameaças orientada por dados massivos e, cada vez mais, suportada por modelos de IA capazes de detectar correlações sutis e padrões emergentes em escala global.
Para as empresas que aceleram a adoção de IA, o relatório traz um alerta adicional: o uso corporativo desses serviços precisa ser governado. Isso inclui políticas claras sobre quais plataformas podem ser utilizadas, como as chaves de API devem ser protegidas, quais dados podem ou não ser enviados a serviços de terceiros e como monitorar o tráfego de DNS e HTTP associado a essas ferramentas. Sem uma governança mínima, a organização corre o risco de criar “sombras de IA”, com aplicações não autorizadas operando fora do radar da área de segurança.
Outro ponto relevante é a necessidade de alinhar segurança e negócio. A pressão por inovação, ganho de produtividade e redução de custos faz com que as áreas de negócio busquem, por conta própria, soluções baseadas em IA. Se a segurança atuar apenas como barreira, a tendência é o surgimento de uso paralelo e descontrolado de ferramentas. Uma estratégia mais eficaz é oferecer, de forma centralizada, opções seguras e homologadas, acompanhadas de monitoramento contínuo e controles de acesso adequados.
Do ponto de vista operacional, a combinação entre IA e automação também está mudando o dia a dia dos times de segurança. A mesma tecnologia que permite a criação de campanhas de phishing hiperpersonalizadas e deepfakes em larga escala pode ser usada para correlacionar eventos, priorizar alertas, sugerir respostas a incidentes e até executar ações automatizadas de contenção. A disputa entre atacantes e defensores, portanto, passa a ser cada vez mais uma corrida por modelos melhores, dados mais completos e orquestração mais ágil.
O contexto descrito pelo Threat Landscape Report 2026 mostra que a era da IA corporativa não é apenas uma história de eficiência e inovação. É também uma fase em que criminosos adotam práticas industriais, com cadeias de suprimentos próprias, serviços especializados e uso intensivo de automação para maximizar ganhos ilícitos. Para as organizações, o recado é claro: investir em inteligência de ameaças, visibilidade de DNS, proteção da superfície de ataque e governança de IA deixou de ser opcional e passou a ser requisito básico de sobrevivência digital.
