Netscout eleva mitigação de DDoS para 33 Tbps e mira nova geração de ataques com IA
A Netscout anunciou uma ampliação agressiva da infraestrutura de seu serviço Arbor Cloud, elevando a capacidade global de mitigação de ataques DDoS para 33 Tbps. O salto, que mais que dobra o limite anterior de 15 Tbps, foi oficializado em 24 de julho e marca uma mudança estratégica da empresa em um momento em que ataques impulsionados por inteligência artificial ficam mais frequentes e sofisticados.
O avanço foi possível após a compra, em maio, da infraestrutura que antes sustentava o Arbor Cloud, até então operada por terceiros. A Netscout adquiriu esses ativos da DigiCert Inc. por 55 milhões de dólares, internalizando o controle sobre a rede de mitigação e abrindo espaço para maior integração tecnológica entre seus produtos.
Com a nova escala, a companhia se posiciona para enfrentar ataques de proporções históricas – como o ataque conduzido pela botnet Aisuru, no fim de 2025, que chegou à marca de 31,4 Tbps e se tornou um divisor de águas para o mercado de proteção contra DDoS. Agora, a capacidade declarada de 33 Tbps coloca a Netscout em um patamar que lhe permite absorver ofensivas desse nível sem interromper o serviço de seus clientes.
Segundo Carlos Morales, vice-presidente sênior e gerente geral da Arbor Cloud, a pressão sobre as equipes de segurança só tende a crescer. Ele aponta a IA como catalisadora dessa nova fase de ataques: criminosos digitais estão explorando a tecnologia para orquestrar campanhas extremamente coordenadas, multivetoriais e capazes de explorar vulnerabilidades lógicas e de capacidade de rede ao mesmo tempo. O objetivo, afirma, é derrubar infraestrutura crítica de organizações que ainda se apoiam em defesas tradicionais, projetadas para uma era em que volumetria era praticamente o único fator relevante.
Capacidade deixa de ser diferencial e vira “bilhete de entrada”
O upgrade para 33 Tbps deve estar totalmente operacional até o fim de agosto. Em termos de capacidade declarada, a Netscout se aproxima de competidores como a Akamai, que trabalha na faixa dos 20 Tbps, embora ainda esteja longe da Cloudflare, que divulga uma capacidade teórica de 500 Tbps. Para os especialistas, porém, a simples soma de banda já não é o que diferencia um provedor de mitigação.
Chris Steffen, analista da Enterprise Management Associates, resume essa mudança de percepção: capacidade virou “custo de entrada” no mercado. Em outras palavras, ter dezenas de Tbps disponíveis é requisito básico, não vantagem competitiva. Ele lembra que qualquer recorde de mitigação pode ser superado a qualquer momento, bastando o surgimento de uma nova botnet poderosa, alimentada por dispositivos conectados e, cada vez mais, por automação guiada por IA. O foco, diz Steffen, deslocou-se para dois pilares: velocidade de reação e precisão na identificação dos vetores de ataque.
A própria Netscout parece alinhar sua estratégia a essa leitura. A empresa vem investindo em mecanismos de proteção adaptativa e automação de resposta. Em fevereiro de 2025, introduziu proteção DDoS adaptativa no Arbor Threat Mitigation System (TMS), permitindo que o sistema aprenda com o comportamento de tráfego ao longo do tempo e ajuste, quase em tempo real, políticas de filtragem, limites e perfis de normalidade. A tendência é que essa camada de inteligência seja cada vez mais integrada ao Arbor Cloud, formando um ecossistema unificado entre appliances on-premises e defesa em nuvem.
Integração entre data center e nuvem: fronteiras mais turvas
Um dos efeitos diretos da aquisição da infraestrutura do Arbor Cloud é a capacidade de integração mais estreita entre as soluções locais da marca, como o Arbor Edge, e os serviços em nuvem. Carlos Morales destaca que a empresa pretende, na prática, dissolver as fronteiras entre defesa on-premises e cloud, tratando as duas camadas como partes de um mesmo sistema de proteção, com políticas coordenadas e visibilidade contínua fim a fim.
Na prática, isso significa que o cliente pode, por exemplo, detectar precocemente um ataque em sua borda de rede local e, em questão de segundos, acionar o desvio de tráfego para o Arbor Cloud, que assume a mitigação volumétrica mais pesada. Ao mesmo tempo, informações de telemetria capturadas no ambiente on-premises retornam para a nuvem, alimentando modelos de detecção e aprimorando a resposta a ataques futuros. Essa arquitetura híbrida busca reduzir janelas de exposição e minimizar o impacto em aplicações críticas, mesmo durante campanhas de larga escala.
Setores críticos sob pressão constante
A expansão da capacidade da Arbor Cloud mira, sobretudo, setores em que a interrupção de serviços é inaceitável. Serviços financeiros, instituições de saúde, varejo digital, provedores de serviços de internet e empresas de infraestrutura crítica figuram entre os principais beneficiados. Para esses segmentos, um ataque DDoS bem-sucedido não se traduz apenas em indisponibilidade temporária, mas em perda de receita, danos reputacionais, quebra de contratos e, em alguns casos, risco à segurança física de pessoas.
A Netscout destaca que a nova estrutura foi desenhada para lidar com múltiplos ataques simultâneos, mantendo estabilidade operacional mesmo em cenários de estresse extremo. Isso inclui campanhas coordenadas contra vários clientes ao mesmo tempo, ataques regionais que atingem provedores de conectividade e ofensivas que exploram múltiplos vetores – como floods de UDP e TCP, ataques de aplicação e exploração de protocolos específicos usados em serviços críticos.
Essa resiliência é reforçada por um centro de operações de segurança que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, com equipes especializadas e playbooks de resposta já testados em incidentes reais. A análise contínua do tráfego global de internet, com visibilidade em larga escala das tendências de ataque, alimenta uma base de inteligência de ameaças que é aplicada diretamente nos mecanismos de filtragem do Arbor Cloud.
A influência da IA na nova geração de ataques DDoS
O crescimento da capacidade de mitigação precisa ser entendido à luz de uma mudança estrutural: a incorporação massiva de IA pelos próprios atacantes. Modelos de linguagem e algoritmos avançados estão sendo usados para automatizar a descoberta de alvos, otimizar vetores de ataque, testar combinações de protocolos e até criar scripts que se adaptam à defesa em tempo real.
Em vez de simples floods de tráfego, começam a se popularizar ataques mais cirúrgicos, de menor volume, mas extremamente direcionados, projetados para escapar de sistemas que dependem apenas de limiares fixos de volume ou conexões. Ao mesmo tempo, surgem ataques híbridos, que combinam técnicas volumétricas tradicionais com exploração de vulnerabilidades em aplicações, uso de serviços legítimos de nuvem como amplificadores e manipulação de APIs expostas.
Nesse cenário, ter apenas “mais banda” não basta. As soluções precisam combinar correlação de eventos, análise comportamental, reputação de IPs e domínios, e sobretudo uma resposta automatizada, capaz de se reconfigurar à medida que o ataque evolui. A mensagem de Morales é clara: o ambiente de DDoS está em mutação constante, e só sobrevive quem consegue acompanhar essa velocidade de transformação.
Automatização e resposta em tempo quase real
A busca por defesas mais automáticas está no centro da estratégia da Netscout. A empresa trabalha para reduzir ao mínimo a dependência de intervenção manual durante um ataque, substituindo decisões humanas demoradas por políticas adaptativas pré-treinadas e por fluxos automatizados de análise e contenção.
Na prática, isso significa que, ao detectar uma anomalia de tráfego, o sistema pode aplicar rapidamente contramedidas como redirecionamento para scrubbing centers, bloqueio seletivo de origens suspeitas, limitação de requisições a determinados serviços, uso de CAPTCHA em fluxos de aplicação e ajustes dinâmicos em regras de firewall e roteadores. A análise posterior do incidente retroalimenta os modelos, aprimorando os perfis considerados “normais” para cada cliente, faixa horária e tipo de aplicação.
Para as equipes de segurança, isso tem um impacto direto: elas deixam de gastar energia apenas “apagando incêndios” durante o ataque e passam a atuar de forma mais estratégica, analisando causas, reforçando políticas, revendo arquitetura e priorizando ações preventivas.
O papel da visibilidade global em ataques DDoS
Um diferencial frequentemente citado pela Netscout é a visibilidade ampla que a empresa afirma ter sobre o tráfego de ataque na internet. Ao atender uma base diversificada de clientes ao redor do mundo, a companhia coleta dados em larga escala sobre vetores emergentes, infraestrutura de comando e controle, padrões regionais e novas formas de amplificação e reflexão usadas pelos criminosos.
Essa visão global permite antecipar tendências que, em muitos casos, ainda não se manifestaram em alguns mercados. Assim, quando um novo tipo de ataque começa a aparecer em determinada região, as assinaturas e técnicas de mitigação podem chegar já ajustadas a clientes de outras partes do mundo, reduzindo a surpresa e o impacto.
Para organizações que ainda tratam DDoS como um problema pontual ou sazonal, essa inteligência reforça a percepção de que se trata de uma ameaça contínua, em constante evolução, e que exige monitoramento permanente.
O que as empresas devem considerar ao avaliar serviços de mitigação
O movimento da Netscout também reacende uma discussão importante entre CISOs e gestores de TI: quais critérios realmente importam ao escolher um provedor de mitigação de DDoS? A capacidade medida em Tbps continua relevante, especialmente para empresas de grande porte e provedores de infraestrutura, mas já não pode ser o único fator de decisão.
Além da capacidade bruta, pontos como tempo médio de detecção, rapidez de redirecionamento do tráfego, granularidade dos controles, integração com o ambiente on-premises, qualidade da inteligência de ameaças e modelo de suporte (incluindo SOC 24×7) ganham peso. A possibilidade de simular ataques, testar playbooks de resposta e medir o desempenho do provedor em cenários reais também se torna um critério essencial.
Outro aspecto crucial é a flexibilidade do modelo de contratação. Muitos clientes buscam combinações de proteção always-on com cenários sob demanda, em que o tráfego é desviado apenas quando um ataque é detectado. Essa flexibilidade precisa ser equilibrada com o apetite de risco de cada organização e com o impacto que alguns minutos de indisponibilidade podem ter em seus negócios.
Evolução contínua como requisito do mercado de DDoS
Ao comentar o cenário futuro, Carlos Morales reforça que o combate a DDoS não permite acomodação. Novos vetores, combinações de técnicas e usos criativos de protocolos e serviços surgem o tempo todo. Para acompanhar esse ritmo, não basta realizar grandes upgrades pontuais; é preciso manter um ciclo contínuo de inovação, atualização de assinaturas, revisão de modelos de detecção e expansão da própria infraestrutura.
Essa visão é compartilhada por analistas de mercado, que enxergam a mitigação de DDoS se aproximando cada vez mais de um jogo de xadrez de longo prazo, em que cada movimento ofensivo é seguido por uma reação defensiva – e vice-versa. Nesse tabuleiro, a Netscout tenta se posicionar como um dos jogadores centrais, apostando em capacidade elevada, forte integração entre nuvem e on-premises, inteligência global e automação avançada.
DDoS como risco estratégico de negócio
Por trás dos números e das siglas técnicas, há uma mudança de mentalidade em curso. Ataques DDoS deixaram de ser vistos apenas como incômodos operacionais e passaram a integrar, de forma permanente, o mapa de riscos estratégicos das organizações. Em um mundo hiperconectado, a disponibilidade de serviços digitais se tornou parte essencial da continuidade de negócios – tanto quanto energia elétrica, logística ou fornecedores críticos.
Ao ampliar sua capacidade de mitigação para 33 Tbps e reforçar seus mecanismos de defesa inteligente, a Netscout procura responder a essa nova realidade: um ambiente em que ataques volumétricos e sofisticados, alavancados por IA, podem atingir qualquer organização, em qualquer lugar do mundo, a qualquer momento. Para as empresas, a mensagem implícita é que investir em proteção contra DDoS deixou de ser opcional e passou a fazer parte da própria governança de risco e da segurança de suas operações digitais.
