Brasil lidera crescimento global de ciberataques com 4 mil tentativas semanais

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Brasil supera marca de 4 mil ciberataques semanais por organização e puxa alta global

O Brasil entrou em junho de 2026 em um novo patamar de exposição digital. De acordo com o relatório mensal de inteligência de ameaças da Check Point Research (CPR), cada organização instalada no país foi alvo, em média, de 4.001 tentativas de ataque cibernético por semana. O número representa uma alta de 44% em relação a junho do ano anterior e coloca o país muito acima da média mundial, de 2.270 ataques semanais por organização.

Enquanto o mundo como um todo registrou crescimento de 10% em relação a maio e de 17% na comparação anual, o avanço brasileiro mostra que a superfície de ataque no país está se ampliando mais rápido que a média global. Para especialistas, isso evidencia tanto a atratividade do mercado nacional para o cibercrime quanto fragilidades ainda persistentes na postura de segurança de empresas e órgãos públicos.

Brasil acima da média global e América Latina no centro da mira

O movimento observado no Brasil acompanha a escalada registrada na América Latina como um todo, que mais uma vez apareceu como a região mais atacada do planeta em junho. As organizações latino-americanas sofreram, em média, 3.501 ataques semanais, um salto de 27% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Logo atrás aparecem Ásia-Pacífico, com 3.060 ataques por semana por organização, e África, com 3.008. Mesmo com uma redução anual de 9% no continente africano, o patamar ainda é elevado. Europa e América do Norte também não ficaram imunes: registraram altas de 22% e 14%, respectivamente. A conclusão da CPR é que não se trata de um surto localizado, mas de uma escalada global e coordenada da atividade maliciosa.

Setores mais visados no Brasil: governo na linha de frente

Dentro do cenário brasileiro, o setor governamental manteve-se como o principal alvo dos criminosos digitais em junho. Órgãos públicos concentram grandes volumes de dados sensíveis de cidadãos, informações estratégicas e sistemas críticos, o que torna qualquer brecha potencialmente devastadora em termos de impacto social, econômico e político.

Em seguida aparecem os segmentos de Bens e Serviços de Consumo e o setor de Energia e Serviços Públicos (utilities). Empresas de consumo lidam com enormes bases de dados pessoais e financeiros, enquanto companhias de energia e infraestrutura crítica operam sistemas que, se comprometidos, podem causar interrupções em serviços essenciais. A combinação de alto valor dos dados, eventuais defasagens tecnológicas e pressão por disponibilidade constante acentua a atratividade desses alvos.

Junho marca retomada forte da atividade maliciosa

Os dados da CPR mostram que junho rompeu a relativa estabilidade observada em maio. Em vez de um aumento concentrado em uma única região ou em um setor específico, a alta foi generalizada entre diferentes mercados e segmentos. Isso indica uma expansão das operações dos cibercriminosos para um espectro mais amplo de vítimas, e não apenas uma variação pontual.

Omer Dembinsky, gerente de Pesquisa de Dados da Check Point Research, avalia que o comportamento de junho revela uma “retomada ampla da atividade cibernética, e não um pico isolado de ataques”. Segundo ele, os grupos maliciosos estão ampliando sua atuação tanto em termos geográficos quanto de setores-alvo, enquanto quadrilhas de ransomware se reorganizam e aumentam sua escala operacional.

Dembinsky destaca ainda que a ascensão do grupo The Gentlemen ao topo do ranking de ransomware mostra a velocidade com que novos operadores conseguem ganhar relevância global. Em pouco tempo, gangues até então pouco conhecidas podem se tornar protagonistas em campanhas de extorsão em larga escala, explorando brechas de segurança e a falta de visibilidade em ambientes corporativos complexos.

Ransomware em alta e novo protagonismo do grupo The Gentlemen

Entre as principais tendências apontadas no relatório está o aumento de 33% nos ataques de ransomware. Esse tipo de ameaça, que sequestra dados ou sistemas e exige pagamento de resgate para restabelecer o acesso, segue sendo uma das armas preferidas dos criminosos para monetizar invasões.

O grupo The Gentlemen assumiu a liderança entre as gangues de ransomware mais ativas, desbancando operadores tradicionais. A atuação desse coletivo evidencia o grau de profissionalização do crime digital: campanhas bem coordenadas, uso de múltiplas etapas de intrusão (desde phishing até exploração de vulnerabilidades não corrigidas) e táticas de dupla extorsão, em que os dados são não apenas criptografados, mas também exfiltrados e ameaçados de vazamento público.

Para as organizações brasileiras, o avanço do ransomware significa que incidentes antes vistos como pontuais ou distantes passam a ser uma ameaça concreta ao negócio, com potencial de paralisar operações, comprometer a confiança de clientes e gerar multas regulatórias pesadas em função da exposição de dados pessoais.

Educação continua como setor mais atacado no mundo

Embora o governo lidere as estatísticas no Brasil, globalmente o setor de Educação permanece na primeira posição em volume de ataques. Em junho de 2026, instituições educacionais sofreram, em média, 4.816 ataques semanais por organização, um aumento de 16% em relação a junho de 2025.

Escolas e universidades lidam com um ambiente tipicamente mais aberto, com grande rotatividade de dispositivos (notebooks, celulares, tablets), múltiplos tipos de usuários (alunos, professores, pesquisadores, terceiros) e orçamentos geralmente limitados para segurança. A combinação de redes amplamente distribuídas, infraestrutura muitas vezes desatualizada e dados acadêmicos e pessoais valiosos cria um terreno fértil para a ação de criminosos.

Na sequência, os setores de Governo, com 2.836 ataques semanais (alta de 5% em um ano), e Telecomunicações, com 2.835 (crescimento de 13%), completam o topo do ranking mundial. Juntos, Educação, Governo e Telecom concentram uma fatia desproporcional do total de ataques cibernéticos no planeta.

IA generativa amplia risco de vazamento de dados corporativos

Outro ponto de atenção destacado pela Check Point Research é o papel das ferramentas de inteligência artificial generativa no aumento da exposição de informações sensíveis. Em junho, a CPR identificou que um em cada 26 prompts enviados a essas ferramentas a partir de redes corporativas apresentava alto risco de vazamento de dados, o que equivale a uma taxa global de 3,9%.

Isso significa que funcionários, muitas vezes sem má intenção, estão inserindo em prompts dados internos de projetos, códigos proprietários, credenciais, contratos, estratégias de negócios e outras informações que não deveriam sair do perímetro da organização. Uma vez enviados para plataformas externas, esses conteúdos podem ser armazenados, analisados ou até utilizados para treinar modelos, fugindo completamente do controle da empresa.

A CPR aponta que atividades de alto risco foram encontradas em 85% das organizações que utilizam regularmente ferramentas de IA generativa. Ou seja, o problema não é pontual: é sistêmico e exige políticas claras, treinamento de usuários e, idealmente, soluções técnicas para inspecionar e controlar esse tráfego.

Por que o Brasil virou um alvo tão atrativo

O cenário brasileiro combina vários fatores que, somados, aumentam a atratividade do país para grupos criminosos internacionais e locais. A digitalização acelerada de serviços financeiros, varejo, governo e saúde expandiu rapidamente a superfície de ataque, muitas vezes sem que controles de segurança fossem adotados com a mesma velocidade.

Além disso, há uma grande base de pequenas e médias empresas que passaram a operar on-line, mas ainda não dispõem de equipes de segurança dedicadas ou de políticas maduras de proteção de dados. Muitas organizações mantêm sistemas desatualizados, não aplicam patches de segurança com a frequência necessária e subestimam riscos aparentemente “básicos”, como senhas fracas, falta de autenticação multifator e ausência de backup adequado.

A isso se soma um mercado negro ativo de dados brasileiros, em que informações pessoais, credenciais de acesso e registros financeiros têm alto valor. O resultado é um ambiente no qual ataques automatizados conseguem atingir um grande número de vítimas em pouco tempo, com boa probabilidade de sucesso.

Impactos para empresas e órgãos públicos

O crescimento exponencial de ataques não significa apenas mais tentativas de invasão, mas também maior probabilidade de incidentes graves. Entre os impactos mais frequentes estão paralisação de operações críticas, indisponibilidade de sites e serviços, roubo de propriedade intelectual, vazamento de dados de clientes e parceiros, além de danos à reputação.

Para órgãos públicos, o risco inclui interrupção de serviços essenciais à população, indisponibilidade de sistemas de saúde, educação, justiça e segurança, além de exposição de dados de milhões de cidadãos. Em um contexto de regulamentações cada vez mais rígidas sobre proteção de dados, as consequências financeiras e legais se somam às perdas operacionais.

Empresas que sofrem ataques de ransomware, por exemplo, podem enfrentar dias ou semanas de parada, mesmo quando possuem backups. A restauração de ambientes complexos é demorada, e a negociação com criminosos, além de arriscada, não garante a recuperação completa dos dados nem impede o uso indevido das informações roubadas.

Estratégias de defesa: da prevenção reativa à segurança preventiva

Diante da escalada, a recomendação dos especialistas é abandonar a visão puramente reativa, baseada apenas em antivírus tradicionais e respostas pontuais a incidentes. A CPR ressalta a necessidade de uma estratégia de segurança preventiva, apoiada em IA, capaz de identificar comportamentos suspeitos antes que a invasão se consolide.

Isso implica investir em soluções de proteção de endpoint, redes e nuvem com detecção em tempo real, segmentação de redes para limitar movimentos laterais de atacantes, autenticação multifator generalizada, gestão rigorosa de vulnerabilidades e backups testados regularmente. Ferramentas baseadas em inteligência artificial conseguem analisar grandes volumes de dados de logs e tráfego, identificando padrões anômalos que humanos dificilmente perceberiam a tempo.

Outro ponto central é a educação contínua dos usuários. Campanhas regulares de conscientização sobre phishing, engenharia social, boas práticas de senha e uso seguro de ferramentas de IA generativa reduzem significativamente o número de incidentes originados por erro humano. A cultura de segurança deve ser incorporada ao dia a dia da organização, com apoio explícito da alta liderança.

Governança sobre o uso de IA generativa

Com o avanço acelerado da IA generativa nas empresas, torna-se imprescindível estabelecer políticas claras de uso: o que pode ou não ser compartilhado, quais ferramentas são autorizadas, como registrar e auditar o uso e quais dados devem ser obrigatoriamente anonimizados antes de qualquer interação.

Algumas organizações já começam a adotar gateways específicos para IA, que inspecionam e filtram prompts e respostas, bloqueando a saída de informações sensíveis e garantindo conformidade com as regras internas. Outras optam por implementar modelos de IA privados, treinados com dados internos e rodando em ambientes controlados, reduzindo a dependência de plataformas públicas.

Independentemente da abordagem, o ponto central é reconhecer que a IA generativa não é neutra do ponto de vista de segurança: ela pode acelerar processos e aumentar a produtividade, mas também criar novos vetores de vazamento se não for adequadamente governada.

Tendências para os próximos meses

Diante dos números de junho, a expectativa é que o segundo semestre de 2026 mantenha um patamar elevado de atividade maliciosa. Grupos de ransomware devem seguir se reorganizando, explorando novos modelos de extorsão e mirando cada vez mais infraestruturas críticas e cadeias de suprimentos. Ataques automatizados e uso de IA por parte dos próprios criminosos tendem a aumentar a sofisticação das campanhas.

Na América Latina e, em particular, no Brasil, a combinação de alta digitalização, desigualdade no nível de maturidade em segurança e grande volume de dados valiosos indica que a região continuará sob forte pressão. Organizações que ainda encaram cibersegurança como um custo e não como fator de continuidade de negócios correm risco real de ficar para trás – ou de se tornarem as próximas manchetes de incidentes de grandes proporções.

O cenário traçado pela CPR funciona, portanto, como um alerta: a era em que ataques cibernéticos eram exceção ficou para trás. Eles se tornaram parte do cotidiano das operações, e a diferença entre sofrer um incidente controlado ou enfrentar uma crise de grandes proporções está diretamente ligada à preparação prévia, à adoção de tecnologias modernas de defesa e à maturidade da cultura de segurança dentro de cada organização.