Ia amplia pontos cegos de segurança e atrasa resposta, alertam cios

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IA amplia pontos cegos de segurança e atrasa resposta a incidentes, apontam CIOs globais

A adoção acelerada de inteligência artificial nas empresas está abrindo uma nova frente de vulnerabilidades e comprometendo a eficácia da resposta a incidentes de segurança. É o que mostra o Logicalis Global CIO Report 2026, que ouviu executivos de tecnologia de diversos países e traçou um panorama dos riscos emergentes associados ao uso intensivo de IA.

Segundo o estudo, 34% dos CIOs reconhecem que a IA criou novos pontos cegos nas operações de segurança. Em outras palavras, a tecnologia está introduzindo áreas que os times de cibersegurança não conseguem monitorar com a mesma profundidade ou visibilidade que o restante do ambiente. Além disso, 35% dos líderes afirmam que a inteligência artificial reduziu a capacidade de detectar violações e ataques cibernéticos, diminuindo a eficiência de ferramentas e processos que antes estavam sob maior controle.

O relatório mostra que a IA deixou de ser apenas um elemento de defesa, utilizada para correlacionar eventos, automatizar triagens e apoiar analistas, e passou a integrar, de forma cada vez mais clara, a própria superfície de ataque. Mais de um quarto dos CIOs (28%) já enxerga os sistemas de IA como uma fonte relevante de risco dentro da organização. Para 41% deles, o tempo de resposta a incidentes de segurança piorou após a introdução da tecnologia, evidenciando que a promessa de agilidade nem sempre se traduz em prática quando a maturidade de uso ainda é limitada.

Os autores do estudo ressaltam que a inteligência artificial está adicionando camadas de complexidade às operações de segurança em um ritmo superior à capacidade de adaptação de processos, ferramentas e equipes. A integração de modelos, agentes, automações e APIs expande rapidamente o número de componentes a serem monitorados, auditados e protegidos. Sem uma arquitetura bem planejada e governança robusta, essa complexidade acaba se convertendo em brechas exploráveis por atacantes.

Problemas antigos, como a escassez de profissionais qualificados em cibersegurança e a baixa conscientização dos colaboradores, são potencializados pela IA. O relatório aponta que 30% dos CIOs ainda enfrentam falta de habilidades específicas na área de segurança, enquanto 32% consideram a falta de cultura de segurança entre funcionários um ponto crítico. A diferença é que, em um cenário permeado por IA, pequenos deslizes ou erros de julgamento podem ganhar escala e causar impactos significativamente maiores.

Quase dois terços dos executivos ouvidos (66%) admitem que suas organizações ainda não fornecem treinamento adequado sobre o uso responsável de IA. Isso significa que, em muitos casos, colaboradores experimentam ferramentas avançadas sem diretrizes claras de privacidade, proteção de dados, conformidade regulatória e segurança. O resultado da falta de orientação aparece em outro dado preocupante: 57% dos CIOs afirmam que funcionários já colocaram informações sensíveis em risco ao utilizar soluções de inteligência artificial, seja alimentando modelos com dados confidenciais, seja conectando sistemas corporativos a serviços externos sem avaliação de risco apropriada.

A governança de IA, embora amplamente discutida, ainda se encontra em estágio inicial na maioria das organizações. Apenas 34% dos CIOs declararam estar extremamente confiantes de que seus controles de governança acompanham o ritmo de adoção das novas ferramentas. Em muitos ambientes, a velocidade de implementação supera em muito a criação de políticas, padrões técnicos, processos de aprovação e mecanismos de controle contínuo.

Outro ponto crítico revelado pela pesquisa é a falta de visibilidade sobre o real uso de IA dentro das empresas. Somente 37% dos executivos afirmam ter uma visão completa das ferramentas de inteligência artificial em operação em seus ambientes. Isso inclui modelos utilizados em áreas de negócio, aplicações incorporadas a produtos, integrações de terceiros e iniciativas isoladas conduzidas por times específicos. Sem um inventário claro, torna-se impossível avaliar riscos de forma abrangente, aplicar controles consistentes e responder a incidentes que envolvam a cadeia de IA de ponta a ponta.

O relatório ainda mostra que 62% dos CIOs admitiram ter flexibilizado padrões de governança por limitações de entendimento ou capacidade de implementação. Na prática, muitas organizações estão aceitando exceções, pilotos pouco controlados ou integrações apressadas em nome da inovação e da competitividade. O estudo conclui que o papel do CIO está evoluindo: ele passa a ser o guardião da confiança em sistemas que operam com autonomia crescente, assumindo responsabilidade não apenas tecnológica, mas também ética, regulatória e reputacional.

Além dos riscos diretos para a segurança, o documento revela uma maturidade ainda incipiente na entrega de valor com IA. Cerca de 65% dos CIOs não se sentem plenamente confiantes de que conseguirão escalar iniciativas de inteligência artificial para além da fase de pilotos e provas de conceito. Ou seja, muitos projetos permanecem confinados a experimentos controlados, sem avançar para operações críticas de negócio – o que limita tanto os benefícios quanto a urgência de estruturar controles robustos.

A percepção de retorno sobre investimento também é motivo de preocupação. De acordo com o estudo, 82% dos líderes de tecnologia não têm forte convicção de que os recursos alocados em IA já se converteram em valor mensurável para a organização. Esse descompasso entre expectativa, gastos e resultados aumenta a pressão para que os projetos sejam mais bem estruturados, conectados a objetivos claros de negócio e acompanhados por métricas que combinem eficiência, segurança e impacto estratégico.

Em paralelo, o relatório aponta uma tendência clara rumo à chamada IA agêntica, na qual agentes autônomos passam a tomar decisões, executar ações e orquestrar fluxos de trabalho com interferência humana reduzida. Cerca de 60% das empresas planejam investir nesse tipo de capacidade nos próximos 12 meses. Esse movimento, embora promissor em termos de automação e ganho de produtividade, eleva ainda mais o patamar de risco, pois amplia o potencial de erros em larga escala, ações indesejadas e exploração maliciosa por adversários sofisticados.

Diante desse cenário, a segurança deixa de ser apenas um conjunto de controles técnicos e passa a se concentrar também na forma como os modelos são concebidos, treinados, integrados e monitorados ao longo de todo o ciclo de vida. Questões como proteção de dados utilizados para treinamento, prevenção de vazamento de propriedade intelectual, mitigação de alucinações e controle de acessos a integrações externas tornam-se parte central da estratégia de cibersegurança.

Para reduzir os pontos cegos gerados pela IA, organizações precisam evoluir da visão de “ferramenta auxiliar” para “plataforma crítica de infraestrutura”. Isso implica tratar modelos e agentes de IA como ativos de alto risco, sujeitos a processos formais de gestão de vulnerabilidades, revisão de código, testes de segurança, validação de comportamento e auditorias periódicas. A integração com o SOC (Security Operations Center) passa a incluir telemetria específica sobre o funcionamento desses sistemas, seus logs, decisões tomadas e interações com outros componentes de TI.

Outro fator essencial é o fortalecimento da cultura organizacional em torno do uso responsável de IA. Programas de conscientização devem ir além das mensagens genéricas sobre phishing e senhas fortes, incluindo módulos específicos sobre riscos de compartilhar dados sensíveis com modelos, boas práticas ao experimentar novas ferramentas e limites éticos no uso de informações geradas pela tecnologia. Esse tipo de educação reduz a probabilidade de que usuários bem-intencionados criem, sem perceber, novas superfícies de ataque.

No campo da governança, a tendência é que empresas estabeleçam comitês multidisciplinares de IA, envolvendo não só TI e segurança, mas também jurídico, compliance, riscos, áreas de negócio e recursos humanos. Esses fóruns podem definir critérios para aprovação de projetos, políticas de uso de ferramentas externas, padrões mínimos de segurança e privacidade, além de mecanismos de revisão contínua conforme a tecnologia e a regulação evoluem.

Os CIOs, por sua vez, precisam equilibrar duas forças opostas: a pressão para acelerar a adoção de IA e a necessidade de manter controles sólidos. Isso exige transparência na comunicação com a alta liderança sobre riscos reais, impactos potenciais e investimentos necessários em pessoas, processos e tecnologia de suporte. A ilusão de que a IA resolverá automaticamente problemas de segurança deve ser substituída por uma visão mais pragmática, na qual a tecnologia é vista como amplificadora – tanto de capacidades defensivas quanto de erros e vulnerabilidades existentes.

Por fim, o relatório indica que as empresas que melhor navegam essa transição são aquelas que encaram IA, segurança e governança como pilares inseparáveis. Em vez de tratar cibersegurança como uma etapa final, posterior à implementação, esses líderes incorporam requisitos de proteção desde o desenho das soluções, adotam o conceito de “segurança por padrão” e criam métricas que ligam diretamente o uso seguro de IA à continuidade do negócio e à confiança de clientes, parceiros e reguladores.

A mensagem central é clara: a inteligência artificial já faz parte do campo de batalha da cibersegurança, tanto do lado da defesa quanto do lado do ataque. Ignorar os pontos cegos que ela cria, subestimar a necessidade de governança e adiar o fortalecimento da cultura de uso responsável é abrir espaço para incidentes mais graves, respostas mais lentas e danos mais difíceis de reparar.